Durante os últimos anos demos muitos passeios, mudámos de casa, fomos de férias, andámos de carro e ele com a cabeça de fora da janela. Gritei muitas vezes por cada vez que me fugia quando abria o portão para sair de casa. Tive de inventar muitos esquemas para lhe dar comprimidos. Dei-lhe muitos banhos e penteava-lhe o pêlo enquanto admirava a sua postura vaidosa. É o primeiro a dar-me os bons dias com um olhar de preguiça. É o primeiro a desfazer-se em alegria ao ver-me chegar a casa ao fim do dia. Delira com a campainha toca e com o cheiro de castanhas assadas. Vem a correr para a minha beira quando ouve a minha mãe a chamar por ele (é porque fez asneira!).
Com o tempo deixou de dormir aos meus pés porque já não conseguia subir para a cama. Comprámos uma alcofa azul e branca, onde a Ni se senta com ele a dar-lhe mimos e a fazer-lhe penteados. Deixou de comer com a mesma vontade. Deixou de fugir lá para fora quando eu abria o portão para sair de casa. Deixou de subir para o meu colo quando estava sentada no sofá. Deixou de ladrar cada vez que ouvia o cão do vizinho a ladrar. Deixou de conseguir subir as escadas. Deixou de ver quando o via a bater com a cabeça na porta. E depois de mais de 14 anos tive de me encher de coragem e levá-lo hoje ao veterinário. Fiquei com ele até adormecer, a fazer-lhe festinhas debaixo do focinho e ele a lamber-me a mão, a encher-me de beijinhos talvez por eu estar a chorar. Até que chegou o momento em que tive de o deixar. Ele ficou e uma parte de mim ficou com ele.