30 dezembro, 2012

entre um ano e o outro

O pior que pode acontecer num ano é perder alguém. Este ano perdi um alguém. De forma inesperada, apesar de o prever racionalmente, o meu primo, com pouco mais de 30 anos morre durante a noite. Nesse dia estava no Brasil. Tudo o que senti foi à distância, em lágrimas de desespero, outras controladas, outras em silêncio. Talvez, por isso, ainda tenha (muitos) momentos em que parece que não pode ter acontecido, que não pode ser possível que o A. não esteja aqui. Não há um dia que não pense nele. Não há um dia em que não pense na forma como ele viveu - nunca foi livre para escolher o que gostava de fazer. Sempre com restrições e obrigações que o tornavam naquilo que ele não queria ser. Não há um dia em que não pense na forma como ele amava a minha avó, como adorava brincar comigo e com a mana maravilha no meio da terra naquele Antigamente que com o tempo vai sendo mais delicioso.

E com isto penso que há coisas que se tornam tão pequeninas, apesar de parecerem tão grandes nos nossos dias: as discussões, as indecisões, as complicações (oh, vontade de se complicar tudo!), as tristezas, os rancores, as mágoas, as ofensas... para quê? Fazemos questão de estarmos focados nesta parte da vida e tornamos invisível o que é realmente importante: sermos aquilo que queremos ser.

Para o próximo ano não quero perder mais ninguém. E só quero ser aquilo que quero ser.

23 dezembro, 2012

"C Que Sabe"

Escrever aqui foi evoluindo ao longo do tempo. Gostava de palavrar mais, partilhar mais, disparatar mais. Umas vezes não tenho tempo, outras não tenho energia e outras não me apetece. Acontece. Já tive momentos em que tive para fechar o tasco de vez; já tive outros momentos que fui surpreendida com palavras desse lado, por gostarem de me ler; e já ando aqui há tempo suficiente para isto me fazer falta, mesmo quando não tenho tempo, energia ou falta de vontade.

Uma das coisas que sempre quis foi ter um header catita, que fosse feito por mim e que contasse, ao mesmo tempo, uma história (já lá vamos). E txanaaa! a isto me dediquei hoje, uns minutinhos enquanto ouço Rodrigo Leão com a manta lilás vinda da Austrália enrolada nas pernas e antes de pôr em dia os episódios da segunda temporada do Homeland (uh uh). Ficou um header grande porque sou meia impaciente e não consigo ajustar melhor a fotografia. Mas... (aqui vem argumento bom para vos convencer que assim até fica melhor) ... mas com este tamanho conseguem ver todos os detalhes, podem tentar reconhecer as caras, os rostos, as pessoas e ouvirem o que elas têm para vos dizer.

Agora vamos à parte da história.
Fui eu que tirei esta fotografia (com a Bebé, claro!) em Agosto deste ano, num restaurante em São Paulo (Sampa como gosto de chamar). Sampa tem dos melhores restaurantes italianos (cantinas como eles dizem) que podem existir e no bairro do Bixiga é porta sim, porta sim. Esta fotografia vem do C Que Sabe que, num tom coloquial e com sotaque de novela da Globo, quer dizer você é que sabe. Canta-se, toca-se, fala-se alto, come-se uma pasta maravilhosa, um picante espetacular, paga-se bem, tem tralha nas paredes, no tecto, aqui e ali e o dono é o chef italiano mais conceituado do Brasil, pesa mais de 100kg, é motoqueiro, adora comer, beber champanhe português e recebe as pessoas como quem está em casa. Na verdade, aquela é a sua casa. Conta ele emocionado que é uma cantina de cinco gerações; ele acabou por fazer dos melhores cursos de cozinha em Itália, conhecer a especificidade de cada província e inovar ainda mais os sabores daquela ementa.
Fui duas vezes ao C Que Sabe enquanto estive em Sampa este ano e foi na primeira vez que tirei esta fotografia. Há muitas outras espalhadas por toda a cantina. Esta é a minha preferida porque tem a Elis e quem tem a Elis é como ter toda a fascinação numa imagem.

Para, deste lado do Atlântico, conhecer o  C Que Sabe - aqui.

19 dezembro, 2012

mais bimbices

Certamente que sou uma ser humana que sofre de frio. Ando de gorro, camisolas quentes, casaco quentinho (finalmente este ano tenho um que não me faz parecer um chouriço, adoro adoro adoro @ Bimba y Lola), collants quentes e mais um par de meias, para ficar mesmo assim no ponto. Pareço que moro no Pólo Norte, eu sei. Para mim é como se fosse. Sofro de frio, senhores!

Para dormir é outro drama. Crio um verdadeiro mundo polar. Então, estava ontem a dizer à minha mãe que precisava de mais um cobertor (já disse que sofro de frio?). Ela riu-se e confessou-me que uma das minhas prendas de Natal ia ser um cobertor térmico. Oh, alegria. "Posso abrir já, posso? Posso?" Não, não pude.

Vou ter um cobertor térmico no mundo polar. Bimbices ... mas quero lá saber; vou ficar tão quentinha que tenho para mim que só saio de lá na Primavera. 

16 dezembro, 2012

"Lilás e Aliás"


"Quando eu era pequena, a minha mãe dizia que havia palavras que me caíam no goto. Nunca deixei de ser um bocadinho infantil e ainda agora, com 48 anos, me caiu no goto a sequência «pirilau, balandrau, carapau, colorau, baú, besouro, gafanhoto, macambúzia, sutiã». Mas, quando eu era pequena, a palavra que realmente me caiu no goto foi a palavra «aliás». Era uma palavra que a minha mãe usava.
A minha cor preferida, no tempo em que me caiu no goto a palavra «aliás», era o lilás. Associava a cor lilás à palavra «aliás». Ainda hoje, «aliás» é para mim uma palavra lilás.
Pedi à minha mãe que me comprasse, numa loja de brinquedos da Baixa em que havia latinhas de tinta, uma latinha de tinta lilás.
Em casa, quis fazer uma experiência. Eu acreditava que, se entornasse o conteúdo da latinha sobre a mesa das bonecas, a mesa ficava instantaneamente lilás, como nos filmes de desenhos animados, como por magia.
Fiz a experiência. Mas a tinta caiu do tampo da mesa das bonecas para o chão, onde fez uma poça. A mesa das bonecas não ficou pintada de lilás. Ficou com uma pocinha de tinta lilás, a escorrer fios de tinta lilás.
Eu não fiquei desiludida. Foi a minha primeira experiência de Física, parece-me. Ao fim e ao cabo, também era deslumbrante.
O chão ficou manchado de lilás. Passaram-se mais de 40 anos sobre esta experiência. O chão, de madeira, continua manchado de lilás, no mesmo sítio. O lilás evoluiu ara azul."

Adília Lopes


Obs. Eu gostava de saber dar títulos assim às minhas histórias.
E mais uma coisa: gosto de lilás e de roxo, mas prefiro violeta.  

13 dezembro, 2012

Demónios e Anjos

Não, não estou a falar do livro (até porque esse é "Anjos e Demónios") do Dan Brown - por acaso o único que li do senhor, que até gostei, mas depois veio o filme e estragou tudo.

Adiante...

Há pouco tempo disseram-me que era otimista e irrealista. No contexto em que foi dito, a palavra "irrealista" demorou a ser engolida. Fiquei a pensar se as histórias de Gotham Central, do Wolverine, da Guerra das Estrelas, do Hobbit e do Senhor dos Anéis me andam a atrapalhar noção de tempo e espaço, a trocar os sentidos; mas não, sei bem onde os tenho. Sei bem quem sou. E irrealista não encaixa em mim. Racional, encaixa na perfeição. E fui usando a razão, com a minha capacidade analítica que chega a impressionar (às vezes até a mim própria - deve ser coisa de investigadora), que concluo que tenho um demónio à perna. Pensei que só seria possivel na BD e nos livros catitas, mas afinal eles andam aí e eu tenho um só para mim (uh uh). Demónio do grego significa "génio mau" e é mesmo isso que o meu demónio é, um génio mau que não sabe lidar com pessoas. Dá-me cabo dos nervos pessoas que escondem afetos, que fazem questão de não sentir, que acham que reconhecer ou elogiar pode ser um pecado que os leva ao inferno. Dá-me cabo dos nervos a arrogância das palavras escolhidas, a prepotência dos gestos e o tom de voz concreto. Dá-me cabo dos nervos a falta de sensibilidade em perguntar, querer compreender, preocupar-se. O meu demónio é assim e dá-me cabo dos nervos. Até que chega um anjo (também existem e esta é a parte boa da história) na altura certa. Preocupada. Compreensiva. Assertiva. Anjo do grego significa "mensageiro" e é mesmo assim o meu anjo de cabelos loiros, que agrega multidões e conhece todas as empregadas da Parfois do Porto.Numa semana deixou-me mensagens de coragem, mensagens de ansiedade, mensagens divertidas.

Posso ter um demónio mas ganhei um anjo.

09 dezembro, 2012

Para o doutoramento ando a entrevistar engenheiros e engenheiras, que me falem do que fazem, como foi o percurso académico, se o que aprenderam foi útil e por aí... (isto sou eu a simplificar, porque não é tão linear assim). Isto tem absorvido todo o meu tempo e energia nos últimos tempos; já cheguei a fazer três num dia. E depois a transcrição é coisa de demorar horas. Portanto, não tenho lido, a não ser o Expresso ao sábado ou ao domingo de manhã (exemplo de hoje), não tenho ouvido muita música, só no final das transcrições para não ficar com as vozes dentro de mim e não tenho visto programas de culinária (já disse que sou bimba nestas coisas, nada a fazer). Estou nisto há um mês e dois dias, tenho treze entrevistas, um total 60406 palavras; faltam três. E digo: adoro. Adoro falar com as pessoas, acrescentar perguntas, ouvir histórias. E quando dou por ela "tenho dados para fazer ouro".

A seguir seguem-se as conversas com os professores e com os alunos.
Vamos ver.

 

29 novembro, 2012

Estou cansada.
Estou entupida por dentro e apetece-me disparar para norte, sul, este e oeste, dizer o quanto são estúpidos, fechados, tacanhos, pequeninos; abaná-los sem parar até os fazer perceber aquilo que parecem ser incapazes. Depois eu própria me canso de pensar nisto; sou eu que percebo que não vale a pena. Respiro, recalculo os sentidos, calibro a razão e encaro tudo como é, como tem de ser. Um dia será diferente e nisso eu acredito. Só tenho de encontrar o lugar certo para estar. Por agora... tenho três entrevistas "em stock" para transcrever (isto para usar palavreado da engenharia); não me apetece.
Estou cansada.

25 novembro, 2012

conversas da alma # 10

E o que se fazem a estas saudades?

Um fim-de-semana não chega para ouvir todas as tuas histórias, que começam bem lá atrás; o que deveria ser meio é princípio e o que deveria ser fim, contigo, não existe. Sabes o quanto gosto disso? Sabes o quanto gosto, quando paras de andar na rua só para explicares como é que o B. aprendeu a dançar (de forma tão simples) música indiana? Um fim-de-semana não chega para te explicar como é que se fazem arrastamentos, desfocagens, panings e outros truques com a máquina fotográfica. Fico ansiosa para a próxima levar a minha e ficarmos em divagações e experimentações, como duas seres humanas felizes só por tirarmos fotografias. Um fim-de-semana não chega para te explicar quem é o Yoda da Guerra das Estrelas... e ainda tenho de te explicar quem são as outras personagens: a Princesa Leia, o Darth Vader, o Chewbacca e assim. E tu vais fazer aquela cara que fazes, que me faz rir até à exaustão, e um dia talvez vejas um episódio e fiques rendida (!). Um fim-de-semana não chega para ir só uma vez ao Busaba, a não ser que todas as refeições sejam lá. Mas um fim-de-semana chega para te voltar a sentir, minha cor preferida, para fazermos planos no teu regresso aqui e para o meu regresso aí. Estás sempre comigo, mesmo que não saiba o que fazer a estas saudades.



24 novembro, 2012

Desde que comecei as entrevistas para o doutoramento que não faço outra coisa: é marcar, ir às empresas falar com os/as engenheiros/as (ai, como gosto desta parte!) e depois transcrever tudo o que disseram. Parece simples, mas não. A parte da transcrição tira-me anos de vida. Como já tenho alguma experiência, tento fazer ainda no mesmo dia (quando é possível); é uma forma de ir mergulhando nos dados. Para terem uma ideia, 20 minutos de entrevista equivale a cerca de 2 horas de transcrição. E, felizmente, estou a falar com engenheiros/as - pessoas de raciocício pragmático e que não andam às voltas com o discurso. Ou é ou não é. Gosto disso e tem me facilitado muito a vida.

E com isto não tenho feito mais nada, nadinha. O livro do Lobo Antunes está parado, nem consigo espreitar tão-pouco. E isto do tratamento não teve um início feliz; fiquei com intolerância à meftamina e andei a vomitar tudo o que havia dentro de mim.

Hoje, sábado, com entrevistas transcritas em dia, poderia enrolar-me na manta a ler Lobo Antunes num prazer que sei que é mais único do que frequente; mas não. Estou a ver artigos, a tirar notas à mão, a pensar e a escrever. Quem faz um doutoramento (sobretudo quem só tem um ano e meio pela frente!) trabalha sábados, fora de horas, deixando o que se quer para um outro dia, que não se sabe bem qual é.

09 novembro, 2012

a dieta

Há dez anos que sou acompanhada pela minha médica de endocrinologia, que ficou a ser a minha médica do coração. Na semana passada lá fui, como vou todos os anos por esta altura, sabendo que ia levar valente sermão por ter andado um ano sem ter posto os pés no ginásio.

A hormona maldita (que nem quero saber o nome!) deu ar da sua graça outra vez. Novo tratamento. E... dieta! Só tenho de perder 9 quilos (!) - como raio é que isto aconteceu num ano? Hormona maldita e falta de ginásio.

A dieta ... pois! Eu já sou muito bem educada a comer e, por isso, até a médica teve dificuldade em preparar-me o roteiro. Se antes comia pouco, agora pareço um piriquito, como diz a minha mãe. A verdade é que a medicação para controlar a dita da hormona tira-me o apetite. Fazer a dieta não está a ser, por isso, um grande sacrifício; não estou sempre a pensar em comida. O meu grande pecado, já se sabe, é o pão; e naqueles momentos em que sabe bem, a cerveja. Agora pão, só de manhã, uma fatia, escuro, com um fio de azeite virgem, ou com fiambre de perú ou com queijo fresco. E eu perguntei à médica... E então vou lanchar o quê? Só sei comer pão. Responde-me com muita serenidade: Duas bolachas com chá, ou um iogurte, ou fruta (ananás) ou um ovo cozido. Já me estão a imaginar cheia de tralha dentro da carteira, não estão? Pois é assim agora que ando. Ao almoço é sopa e fruta. Ao jantar legumes cozidos com peixe ou carne, ou só mesmo os legumes. E é isto. Tão simples quanto isto.

Mas, claro, de quando em quando preciso de fazer umas asneirinha aqui e ali.
Só para isto ter mais piada ...

[balanço: já perdi dois quilos]

28 outubro, 2012

tenho binte óito anos

Sempre achei piada a quem diz "binte óito". Não é por gozo, é mesmo por achar catita. É o único número que se diz assim. O "binte 'nobe" não é tão catita como o "binte óito". Sei que é muito coisa do norte e talvez por ouvir tanto é que gosto tanto. 

no supermercado: "binte óito" pães, s.f.f.
no sítio onde faço as unhas: "binte óito" euros [obviamente não é o que pago para fazer as unhas]
no café: no dia "binte óito"

Agora que cheguei aos "binte óito" posso dizer desta forma: tenho binte óito anos. Ao mesmo tempo que digo, dá-se-me aqui uns tremeliques. Sabem, é que estou a crescer. Isto deixou-me a pensar...
Aqui ficam binte óito razões para que isto de crescer pareça uma coisa fixe:

1. pode-se votar e sentir que fazemos parte de uma outra parte da história
2. tem-se trabalho para se poder comprar livros todos os meses
3. pode-se conduzir e ouvir música alta no carro 
4. vê-se "Os Simpsons" e percebem-se as piadas
5. tem-se mais histórias para contar na bagagem
6. vê-se mais jogos do Benfica vistos (ai, alegria!)
7. sabe-se que o Pai Natal não existe mas podemos continuar a fazer com que exista 
8. mantêm-se as sapatilhas preferidas porque o pé não cresce mais
9. aparecem os cabelos brancos mas escolhe-se uma cor para os esconder
10. quer-se mais carimbos no passaporte (eu quero muito!)
11. descobre-se o prazer de comer legumes, peixe fresco e essas coisas
13. ... e também o prazer de uma cerveja fresca ao final da tarde
14. aprecia-se a pequenada a cada dia a ficarem mais giras
15. pode-se ficar a ver os óscares todos os anos em direto (só temos de aguentar o sono no dia seguinte)
16. descobre-se que o mundo é muito maior do que as ruas onde passamos todos os dias
17. usa-se maquilhagem catita quase todos os dias
18. aprende-se palavras novas como "fleumático" ou "loquaz"
19. começa-se a gostar de flores nos vasos
20. começa-se a achar que  a lamechice, de quando em quando, sabe bem
21. as palavras misturadas com as pessoas ganham novos sentidos
22. chega-se mais alto e assim se chega cá dentro
23. aperfeiçoa-se o assobio nos concertos
24. ... ou quando se chama alguém que está longe
25. ouvem-se sinos e saem sorrisos
26. não se esquece de como é ser pequenino ou pequenina 
27. sente-se o momento como aquele que vale a pena ser vivido
28. [...]


Crescer é fixe ou catita ou bom (liberdade para se usar as palavras que quiserem).
Apenas se resume em sermos aquilo que queremos ser.

22 outubro, 2012

voltemos às minhas bimbices

Hoje foi dia de acordar cedo, bem cedo. O despertador tocou às 7h15. Levanto-me para não ter tempo sequer de pensar "só mais cinco minutos". Para quem raramente se levanta a estas horas (já se sabe que sou uma miúda da noite) até foi simples abrir os olhos, sair da cama e abrir a janela. Qual não é o meu espanto por ver que a esta hora é noite! Lá estavam, os candeeiros ainda acessos, o céu escuro e a chuva a começar a cair. Fiquei confusa... Olho para o relógio que marcava 07h17. Deve ser mais cedo, isto não está bem (isto sou eu a pensar). Desci as escadas e vou a cozinha confirmar em todos os relógios: box da televisão, forno e micro-ondas. E eram 07h20.

B-I-M-B-A

20 outubro, 2012

MAP

Ontem à tarde a minha voz sumiu-se...
Continua sumida. Por isso só interessam as palavras que ultrapassam a morte:


"Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. Devagar 
te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa." 


Acredito que pessoas assim vão para um lugar muito mais catita do que o céu. 
Só pode ser assim. 

19 outubro, 2012

Revolutionary Road


Não sou de deixar livros pela metade, mas esteve quase a acontecer com este daqui. Comecemos pelo início:

Há uns meses (acho que o ano passado!) entro na FNAC em Sta.Catarina, no Porto. Mexe aqui, mexe dali e encontro daqueles packs promocionais de dois livros. E eu não resisto a uma boa pechincha, já se sabe. Do que havia só me agradou um que tinha um livro do Murakami e o "Revolucionary Road" veio por arrasto. Ficou por ali, no meio de outros livros, até então. Depois de ter lido "O Filho de Mil Homens" estava com poucas opções (o que fez com que já fizesse uma encomenda de livros ao P.!) e peguei neste. Folheio, leio a contra capa e vejo que até um romance escrito em 1961. Não deve ser mau, pensei. Mas esta capa com cheiro de Titanic dá-me algumas náuseas ... Não sei porque raio fazem isto aos livros quando são adaptados para cinema! Mas pronto. Tentei abstrair-me e toca a ler.

Narrativa com um ritmo lento, tão lento que é fácil distrair-me com outra coisa qualquer que me passa pela cabeça. Retomo a história e no final de cada capítulo fico com a esperança que o seguinte seja melhor. Como no entretanto comprei o novo livro do António Lobo Antunes, estive mesmo quase para desistir deste, mas a história dá uma reviravolta (ou melhor, uma reviravoltinha!) e penso, ai agora é que vai ficar bom. Não fica. É um romance que se arrasta em descrições rígidas, em diálogos com pouca estrutura no meio de personagens com potencial para serem interessantes. Claro que alguém acaba por morrer (percebi isso a meio do livro), mas sem a dimensão dramática que existem noutros romances. Coisas boas... Eu gosto sempre de encontrar coisas boas. Neste caso, por ser um romance da década de 60 delicio-me com cenários que parecem não existir nos tempos modernos, como ter de telefonar da cabine telefónica. E passa-se em Nova Iorque, o que é sempre positivo.

Obs. Não vi o filme, mas fiquei com curiosidade... para ver se consegue ser melhor do que o livro
(coisa tão rara de acontecer!). 



15 outubro, 2012

nove post its colados na minha testa

orçamento de Estado - parar para pensar sobre o assunto
eleições do Benfica - não esquecer de ir votar
novo livro da Sophia - comprar!
curso de escrita criativa - confirmado
acabar o artigo - esta semana
começar o artigo - próxima semana
procurar umas botas catitas- urgente (só não sei quando)
ler o "não é meia noite quem quer" - mal posso esperar
montar as estantes no quarto - será que vão caber todos os livros que andam soltos?

14 outubro, 2012

a palavrar desde 2008

Comecei este blogue há quatro anos, quase porque a Miss Marta me obrigou a fazê-lo (culpada!).
Como a babe Leninha dizia, isto de comentar, fazer posts, partilhar, para além de nos divertir (muitas gargalhadas dei!), fazia com que estivessemos mais próximos das pessoas com quem já não estávamos todos os dias. Boa verdade. Mas é também verdade que há muita gente que não conheço que lê o que escrevo e no início fui muito ingénua em relação a isso. Os meus Pensatempos foram sendo menos pessoais e tive momentos em que pensei que devia parar de escrever. Essas pausas motivaram quase manifestações da mana maravilha, da estrela Isa e de outras pessoas. Lembro-me de um dia ter recebido um email da babe Catarina com quem raramente agora estou, só para dizer que ler o que escrevo torna as saudades mais pequeninas. Depois foi por causa do blogue que conheci a Tashinha que é uma emoção em formato de pessoa, a Mafas que nunca acabei por conhecer pessoalmente mas é como se tivesse conhecido, a Joana que afinal estava aqui bem perto e outras gentes que fazem parte de mim.

O blogue não faz parte da rotina. Obriga-me a sair dela, a pensar e a escrever. Umas vezes escolho as palavras. Noutro momento são elas que me escolhem. Por isso é que, pela primeira vez, sinto que este blogue faz parte de mim... tão parte como as palavras.

Obrigada a quem passa por aqui só para me ouvir a palavrar.

11 outubro, 2012

o nobel, o lobo e a mãe

Hoje foi atribuído o Nobel da Literatura. À semelhança do ano passado, estava a pedir a todas as estrelas, peixes e borboletas, para que fosse o António Lobo Antunes. Mesmo com Murakami na lista, queria muito que fosse um dos nossos (e um dos melhores que temos, na minha opinião). Em jeito de homenagem (também poderia dizer, em jeito de pretexto), comprei o novo livro do Lobo Antunes - "Não é meia noite quem quer".

Apetece-me parar o que estou a ler ("Revolucionary Road"), o que até nem seria difícil, mas sou metódica nas minhas leituras. Já passei as cem páginas, que ainda não me convenceram... vamos ver o que acontece nas próximas cento e cinquenta.

Em relação ao "O Filho de Mil Homens"... hoje, que tanto se fala em livros, escritores e escritoras, parece-me um dia bom para escrever sobre o último do Valter Hugo Mãe.


Nestas páginas temos o Crisóstomo, o Camilo, a Isaura, o Antonino, a Matilde, a Mininha que é como quem diz Emília. São uma família inventada. Por ser inventada é que o livro se torna tão completo de afetos, de ligações, de sentimentos. É um livro que entra cá dentro e fica... Fica a dobrar.

E ainda bem que o Valter Hugo Mãe o escreveu, ainda bem! Estava capaz de o ler todos os dias até o saber de cor.
 

09 outubro, 2012

Toda a gente alguma vez já disse: "hoje não deveria ter saído de casa". Pois eu acho que deveríamos de ser avisados desses dias e marcar na agenda para não esquecer. 

Não é que hoje esteja num desses dias, mas há coisas que me afligem e me fazem querer não sair de casa, que é como quem diz, não querer ver o mundo. São tantas que lhes perco o rumo dentro do meu raciocínio e depois não consigo estruturar o pensamento - coisa que posso gabar-me de conseguir fazê-lo bem, ou pelo menos conseguia. Talvez precise de ir ao IKEA comprar umas caixas daquelas coloridas e catitas e começar a arrumar as coisas, uma de cada vez, sem lhe perder o rumo. E depois logo se vê se precisam de uma caixa maior ou mais pequena; se precisam de ir para o lixo ou para a máquina de lavar.

E hoje que chove sem parar... e ainda por cima ponho-me a ouvir Jeff Buckley e Bon Iver. Está mal. Não combina. Acho que secretamente vou me por a dançar isto e assim e aqui (3:18):


 

05 outubro, 2012

da república até hoje

Há muito muito tempo atrás, um conjunto de pessoas descontentes, teve a força e a coragem para deitar abaixo uma monarquia e mudar um país inteiro. Acreditavam que Portugal poderia ser mais e com razão. Hoje comemora-se a Implantação da República e pela última vez será um feriado nacional.

Fiquei a pensar...

Depois da República, depois da Ditadura e depois de todos outros momentos na nossa história chegamos a um país com auto-estradas, com caminhos-de-ferro, com estradas antigas conservadas, com mar a inundar parte do "rectângulo", com escolas, com universidades, com fábricas, com hóteis, com restaurantes, com museus, com quintas onde ainda se vindima, com escritórios em prédios quase altos, com castanheiros, com oliveiras e outras árvores que não sei o nome, com lugares em que somos nós a pôr a gasolina no carro, com cafés gourmet, salas de chá ou até mesmo tascas, com internet em cada canto e em movimento, com vinhos e muitos premiados, com cidades culturais, cidades com metro, cidades com neve, cidades desertas. E todas estas cidades livres. Sim, somos um país livre.

Mas, e as pessoas deste país? Têm força e coragem?
Ouvir falar, vale a pena o António Nóvoa e atrevo-me a dizer "só".
Fazer, há que reconhecer que, e ousando utilizar uma expressão bem popular (eufemismo para calão), "é preciso ter tomates" para fazer as malas e ir, ir para fora daqui. Contudo, reconheço que quem fica tem ainda mais coragem. Apesar de ver as pessoas cansadas, algumas angustiadas, muitas não deixam de dizer "Bom dia". Fala-se da austeridade, do Gaspar, do Passos e dos outros compinchas e começam os palavrões em formato de desabafo. Até a mim me saem, numa expressão de esperança morta. As pessoas aguentam-se estoicamente, fazendo contas,  preparando, suando. As pessoas reclamam, fazem greve, manifestam-se. Mas as pessoas até riem quando hoje viram a bandeira ao contrário.

Haja bom humor, paciência, coragem e liberdade.

02 outubro, 2012

ser Outono

Hoje já faz um bocadinho de frio. Já lembra o Outono à séria. Só faltam as folhas no chão para eu calcar, ouvir estalar até quase esfarelar. Está bom para as mantinhas, portanto. Estava capaz de tirar as botas (sim, já ando de botas porque sou uma ser humana que sofre de frio mais do que a maioria), encolher-me num cantinho, como que escondida, e começar a ler o décimo capítulo d' "O Filho de Mil Homens" do Valter Hugo Mãe.

É tudo o que me apetece. Aliás, é o que se deveria fazer no Outono: ler até à exaustão num cantinho qualquer, sair à rua só para esfarelar as folhas e até mergulhar nelas quando estão organizadas em forma de núvens, comer marmelada com marmelada, olhar e cheirar os dióspiros (mas sem comer, não gosto) porque me faz lembrar a minha avó. 

É tudo o que me apetece: ser Outono. 

29 setembro, 2012

O Grande Gatsby

Era daqueles livros que sabia que tinha de ler, mas acabava por nunca acontecer. Isto durante anos. Até que no início de Setembro aconteceu. A andar numa rua no centro de Guimarães esbarro numa livraria escondida, sem nome (pelo menos eu não vi em lado nenhum) e sem ordem, como se os livros se mexessem a toda a hora sem nos apercebermos. Foi de lá que então veio "O Grande Gatsby", da Presença.

Para quem já leu, não é preciso dizer o quão bom este livro é. Não dá para resistir e gosta-se tanto que quando se lê a última página ficamos a querer mais. Para quem não leu, apenas digo que o leiam quando vos vier parar às mãos, sem se aperceberem.

Como disse, estive anos a querer lê-lo mas sem o ler, até que aconteceu. Acredito que há livros que temos de ler na altura certa, porque traz mais do que o próprio livro. Traz momentos que o tornam imortal. No meu caso, a altura certa foi quando passou a existir uma livraria desconhecida e caótica (uma maravilhação!) e esse livro me veio surpreendentemente parar às mãos. E foi assim que "O Grande Gatsby" se tornou imortal dentro de mim. E é tudo o que este livro merece.

26 setembro, 2012

impaciências

Sou uma miúda impaciente. Tanto, que já consigo identificar em mim os sintomas. E aí, começo a engolir e vai tudo para dentro. Não admira que depois grite no osteopata cada vez que me mexe nas costas e no pescoço. E depois também há todo um fenómeno na cabeça. Diz o meu neurologista que os meus vasos estão a ficar fraquitos pela tensão que faço na parte superior. Por isso, sou uma miúda impaciente com contracturas eternas e cefaleias vasculares.

Tudo isto me fez reflectir sobre a minha impaciência. Acho que está relacionado com o meu pragmatismo. Por isso, não tenho paciência para:

- coisas repetidas (excepção: episódios do Seinfeld)
- músicas da Adele (e suas semelhantes)
- aquela cor trigre em tudo o que é roupa (que epidemia!)
- snobismo (em palavras, gestos e acções)
- o orgulho de quem não sabe pedir desculpa quando deve pedir (aqui a impaciência mistura-se com nervosite)
- o meu cabelo quando atinge estado de Chewbacca (já para não falar das brancas que se multiplicam como cogumelos)
- palavras mal escritas e verbos mal conjugados (há quem ache piada, eu não)
- aqueles que deixam o carro mal estacionado na minha rua e me obrigam a andar por cima do passeio (meus grandes anormais, para a próxima juro que chamo a polícia!)
- estar parada, assim, sem fazer nenhum (sim, sou impaciente comigo mesma)
- o Benfica não ter um médio-centro (como não ficar impaciente?)


E agora não tenho paciência para escrever mais impaciências.

18 setembro, 2012

Portugal não me (nos) trata bem

No sábado, enquanto meio país estava na rua, eu estava em Cambridge enfiada numa sala a trabalhar. Talvez por isso, nestes últimos dias, tenho absorvido tudo o que é notícias, imagens, crónicas, opiniões, números e coisa e tal sobre a Manifestação (até a moça que abraçou o polícia). E confesso que fico sempre emocionada. Deveríamos sair à rua todos os fins-de-semana, mostrar a vontade esfrangalhada, o peso da vida, a esperança morta.

Há muito tempo atrás li um artigo de opinião (não me lembro onde, nem de quem) em que o autor contava que, num jantar com um amigo que agora vivia na Nova Zelândia, este lhe perguntava: "e o teu país trata-te bem?". Desde então que me questiono sobre isso. Gosto do meu país. Gosto das pessoas. Gosto da comida. Gosto dos sotaques. Gosto de andar a pé pelas ruas. Mas é um país que não me trata bem. Sobretudo quando quem me põe o dinheiro na conta ao final do mês é o Estado. É muito ingrato fazer investigação neste país. Primeiro é conseguir a bolsa - sete cães a um osso. Depois é conseguir que a FCT nos finalize o contrato - uma eternidade. E depois temos de fazer muito, muito mesmo, para conseguirmos ser os melhores. E fazer parte dos melhores, em investigação, infelizmente, significa produzir. Por outras palavras, quem escrever mais artigos em revistas-com-mais-pinta-internacional, ganha. Já para não falar na angústia de pensar "e a seguir vou fazer o quê?". Suspiro. Muitas coisas poderiam ser faladas a este respeito, que é o meu e de muitos outros bolseiros de investigação, cuja vontade é arrumar os livros, a roupa, a cabeça e o computador e zarpar daqui para fora!

Mas também há as inquietações das outras pessoas, que este país também não trata bem. Ontem estava no supermercado e um senhor, com uma bengala gasta pelo tempo e com uma camisola que parece ser a única que existe, pedia no talho aqueles restos de carne que não se pagam. Quase envergonhado, justifica-se para comigo dizendo: "Sabe menina, isto já dá uma bela sopa". E eu fiquei com o coração feito em pó. E depois saber que um pai não pode mandar a filha (que é só a melhor aluna da escola) para a Universidade porque não tem como fazê-lo. É ouvir perguntas dos estrangeiros (no Brasil, em Londres), "e que tal vai Portugal?", e ter de responder que batemos no fundo, embora o diga de forma mais poética porque na verdade sinto é vergonha. Sinto vergonha de fazer parte de um país que não trata bem as suas pessoas, que as varre para outros países porque batemos no fundo (e agora não preciso de o dizer de forma mais poética). 

Custa dizer isto, com ou sem metáforas, de um Portugal que eu gosto...
Mas que não me (nos) trata bem. 

03 setembro, 2012

Para mim o ano não começa em janeiro, mas em setembro.

Gosto de fazer isso que é parar para pensar na vida, de planear trabalho para o ano (planos ambiciosos!) e de fazer promessas, como voltar ao ginásio (esta tem de ser cumprida!). Também digo para mim mesma que vou escrever mais, ler mais, fotografar mais. E ainda aproveitar mais os últimos meses da Capital Europeia da Cultura, assim, como não houvesse amanhã. Depois comer menos, ser menos impaciente (e noutras coisas, mas esta é prioritária) e entrar menos vezes na Fnac ou trazer menos sacos com coisas da Fnac.

Ah, e dormir melhor, coisa que gostava mesmo muito que acontecesse.


31 agosto, 2012

ainda sobre livros

(porque é sobre a única coisa que me apetece escrever neste momento) ... 




Foram quatro os livros que li no mês oito do ano. Antes de dormir, nas esperas dos aeroportos, no avião... e esta semana foram dois, assim sorvidos de uma vez só.

Agosto começou com "Os Malaquias", como escrevi no meu post anterior.

O segundo, "Uma Questão de Atracção", do David Nicholls. Gostei mais do "Um Dia" sobre o qual também já falei aqui. Mas "Uma Questão de Atracção" (ou "A Resposta Certa" como traduzem lá no Brasil) vale a pena por ser divertido. Conta a história de um rapaz que acaba de entrar para a universidade. A sua expetativa é que a sua vida vai começar precisamente a partir desse momento. Os azares, os desamores, as desenventuras, tornam o livro assim... divertido.


O terceiro, "Estorvo", do Chico Buarque. Comprei-o no Brasil e li-o quase sem conseguir parar. É um livro feito de pormenores e eu adoro isso. Tenho a certeza que se voltar a ler, vou encontrar mais uns tantos. Por exemplo: nenhuma personagem tem nome. Não é espetacular? Estorvo, porque conta a história de um homem (na verdade é contada por ele, na primeira pessoa) sem rumo, sem objetivos e com a certeza que alguém o persegue. Como dizem no Brasil, só encrencas a acontecer e arrasta consigo todas as pessoas à volta - a ex mulher, a irmã, e afins. É o retrato de uma pessoa-estorvo. E saber que há tantas por aí e nunca pensei na palavra estorvo...


O quarto, "Norwegian Wood", do Murakami. Comprei este livro há uns meses na Fnac por uma pechicha. Não estava muito entusiasmada para o ler, porque achei o título estranho... e havia tantos outros dele para ler, com títulos mais catitas. Depois de começar a ler senti-me envergonhada com este meu pensamento. "Norwegian Wood" é uma música dos Beatles, a preferida de uma das personagens da história e vai aparecendo, duas, três vezes, ao longo das 35o páginas. É uma história bem intensa, ao jeito do Murakami. Acabei ontem e fiquei a pensar ... não há um único livro de que não gosto deste senhor.


Agora que o mês nove vem aí, tenho para ler Clarice Lispector, Agustina, mais Murakami ... e se calhar outros que me vão caindo nas mãos.

12 agosto, 2012

aquele que queria ter sido eu a escrever


Foi no final do ano passado que ouvi falar da Andréa del Fuego. Ganhou o prémio Saramago em 2011 e é brasileira. Li uma entrevista dela na Atual do Expresso e foi o bastante para "Os Malaquias" entrar para a minha lista de livros ... aqueles que temos mesmo de ler. No final de Fevereiro estava no Brasil e ia percorrendo tudo o que era livrarias para comprar e nada. Entretanto,  inundei-me com outros da lista sem esquecer este, até que em Portugal o encontro em destaque numa estante da Fnac.Contive-me e decidi que o iria comprar no Brasil para ser muito mais catita.

Ainda assim não foi fácil encontrá-lo por cá. Mas valeu a pena. Não só pela história, mas também pelo design de todo o livro, desde a capa à contra capa (com palavras do José Luis Peixoto), às páginas amarelas e outras tantas pretas. Quanto à história ... foi devorada em um terço de tempo. Tem cheiro a Brasil; aparecem as jabuticabas no jardim, o café por apanhar na quinta e mulher escrita como só aqui se diz, muié. De quando em quando, encontram-se pormenores simples mas que preenchem toda a história. É aí que eu penso: "Queria ter sido eu a escrever este livro".

Seria merecido uma visibilidade maior deste livro no Brasil. Encontrei-o na terceira tentativa, numa das maiores livrarias de São Paulo. Não o encontrei na estante dos autores nacionais. Fui perguntar ao moço; ele vê no sistema e foi buscar no fundo da estante... no fundo da estante, era onde estava este livro, aquele que queria ter sido eu a escrever.



30 julho, 2012

É assim por São Paulo


Neste momento estou em S. Paulo, num quarto de hotel que quase cheira a casa pelas muitas das minhas coisas espalhadas pelos espaços: a mesa cheia de livros e blocos com rascunhos e post its (porque não passo sem eles); o frigorífico abastecido de coca-cola zero, água e iogurtes que só encontro cá e são os melhores do mundo - tudo comprado no supermercado onde me pedem sempre CPF e eu tenho sempre de dizer que não tenho disso; a castanha do pará está escondida de mim própria para que não me afunde; a roupa está arrumada nos sítios certos e os sapatos também (perdi a cabeça e trouxe 3 pares de sapatilhas e 4 pares de sapatos); ouve-se Martinho da Vila quase sem parar e, as saudades de Portugal (porque sim, já as tenho) sopram com o Zambujo na "Lambreta".

Se abrir a janela ouço o barulho desta cidade. Ouvem-se as buzinas, tantas que são. Os helicópteros e tudo o que existe. Com 20 milhões de habitantes o respirar das pessoas ouve-se como um coro. Hoje estão 18ºC, é assim o Inverno por aqui. Mas há meninas de melissas nos pés e meninos de t-shirt branca que passam pelos portões da Faculdade. Sim, a minha janela é em frente à Universidade. Por isso, basta passar a rua para ir à lanchonete e me encher de pães de queijo.

Podia dizer mais coisas catitas: falar do mercado municipal, da vontade comer sushi (aqui abunda!), do taxista que me oferece um cd de samba, da Rua Augusta, do mundo da Vila Madalena, etc. porque São Paulo é grande e tem muito ... muito mais do que carros e pessoas.

Mas vai ter de ficar para a próxima porque são horas de me meter a escrever a tese de doutoramento.
(suspiro)



Obs. Já não escrevia aqui há muito tempo, mas é como andar de bicicleta - não se esquece.  

18 junho, 2012

coisas que acontecem

1. sábado fui ao ginásio e até podia ter sido muito bom se ontem e hoje me conseguisse mexer. dói tudo e dói muito. isto é castigo por meses de ausência e por querer abusar, com toda a energia que me assiste, numa só aula. agora dói, tudo e muito. 

2. ando a tropeçar em trabalho (e às vezes também em preguiça) e não consigo acabar aquele artigo... acabar que é como quem diz, precisa de forma, conteúdo, análise de dados e pensar sobre tudo. Precisava de mergulhar e só voltar à superfície quando estivesse mesmo acabado. ter instalado o EndNote deu-me motivação... a ver até onde ela vai nos próximos dias.

3. as minhas all-star cor-de-laranja nunca mais chegam... todos os dias chego a casa com um desejo imenso de as ver em cima do sofá do escritório a sorrir para mim! sei que a culpa é minha, por querer uma cor que não há nas lojas porque mais ninguém quer...

4. ando viciada em Angry Birds... foi só jogar a primeira vez para ficar rendida. Raios me partam que agora não consigo deixar aquilo! 

5. Portugal passou para os quartos-de-final do Euro 2012. O cunhado preferido foi ver o jogo de ontem. Há uma semana ouvia-o dizer: "vai ficar tudo decidido no último jogo e vamos passar". Gosto das profecias que se auto-realizam! 

6. hoje é dia de nova especialidade ... neurologia. é desta que fico com a certeza se os meus miolos estão no sítio e até se existem. 

7. tenho de tirar tempo para dar uma volta à minha roupa (a minha mãe já pressiona todos os dias); para marcar coisas de beleza de miúdas; para comprar um manjerico antes que os santos passem; para caminhar mais ao fim do dia (quando conseguir finalmente andar); para estar com as babes que me fazem tanta falta; e outras coisas que quero que aconteçam e que não me lembro agora.


11 junho, 2012

2 em 1

1.

Acabei o "Claraboia" no voo Kiev-Lisboa. Quem não dorme em vôos, é assim.
Este é o último livro do Saramago publicado; e pensar que esteve tanto tempo na gaveta...

Conta a história de pessoas que vivem num prédio na décade de 50. Tão diferentes, tão normais. Com segredos. Com conversas. Com preocupações. Com alegrias. Com mudanças. Com tristezas. Com sonhos desfeitos. Com tostões contados. Com surpresas. (...) Com tudo que cada vida dá a cada um. De diferentes formas e feitios.

A história acaba sem acabar. As personagens continuam a viver como quisermos que vivam.
É isto que o Saramago que nos deixa. Um livro que se prolonga em nós mesmos.



2.

Na mesma semana chegou-me às mãos no dia do meu regresso. Assim é bom regressar.

Há muito que queria ler alguma coisa do Agualusa. Depois da "Teoria Geral do Esquecimento" apetece-me ler tudo de uma vez.

É tão simples, tão verdadeiro... a história constrói-se com frases curtas, cada uma trazendo uma emoção expressa numa personagem que mata, noutra que se esquece, outra que faz lembrar, outras que morrem e só se sabe como no final, outra que escreve num caderno porque é muda, um pombo que leva mensagens e come diamantes.

Gostei tanto que estava capaz de o recomeçar a ler.








Para o resto de Junho... vou dedicar-me à BD.

10 junho, 2012

Ser Português

O Fernando Pessoa escreveu:
"o português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja, porque somos um grande povo de heróis adiados".


Acho que muitos portugueses e portuguesas se vêem assim. A si próprios e aos outros portugueses por quem passam todos os dias na rua. Temos heróis adiados por pessimismo, por preguiça e porque, às vezes, também convém. Mas o português é mesmo capaz de tudo. E, por isso, tenho a certeza que todos os dias na rua aparecem esses heróis e heroínas. Não é preciso que tenham descoberto um país; nem ganho uma guerra pela conquista de território ao serviço de Sua Majestade. São heróis e heroínas, primeiro, por falarem português, essa língua cheia de ritmo e de cor. Depois pelo que fazem: pasteleiros com os melhores doces que podem existir, escritores com histórias e palavras genais, voluntários com coração cheio, jornalistas com liberdade de expressão, professores com alma para ensinar, (....)


São heróis e heroínas pelo que fazem, pelo que são, por colocarem os dias e o país a funcionar. 
Falo desses e dessas que não desistem. Que falam a nossa língua, ritmada e colorida,  sem pessimismo, sem preguiça... com orgulho. 


Hoje, no dia de Portugal (pelo menos!) sejamos heróis e heroínas. 
Não importa o Relvas nem a derrota de ontem da Selecção. O que importa é realmente ser português.

25 maio, 2012

barulhentamente muda

Eu tenho coisas para contar. Juro que tenho. Daquelas que me fariam desbundar palavras por aqui, com fotografias da Bebé que me enchem de orgulho. Foi a viagem de primavera, a paixão por Londres, o livro do Yeats, as músicas que me embalam, as neuras como as de hoje, as gargalhadas como as de ontem, as all-star laranja encomendadas, o meu cabelo novo (sempre que disfarço as brancas sinto que tenho um cabelo novo)... Vou escrevendo com a cabeça, mas chego aqui e a minha voz cala-se. Só consigo escrever sobre o que leio porque é escrever sobre as palavras dos outros que me são emprestadas.


Estou baralhentamente muda. Mas preciso de escrever. Preciso de escrever histórias. De começar umas e continuar outras.

22 maio, 2012

o último do Mia

Não sei se posso dizer que li "A Confissão da Leoa". Digo antes que o suguei entre uma insónia e outra. Este é um livro diferente. Não se encontram os neologismos a que o Mia nos habituou. Não são precisos, porque a história já diz tudo.

Moçambique está na história como nunca antes vi num outro livro: as capulanas, o mar visto uma única vez, os feiticeiros, as mulheres na cozinha, os homens no mato.

A vontade de liberdade de uma. A resignação de todas as outras.
Os homens que mandam. Um que caça. Outro que escreve.
As crianças que não brincam, mas que também não rezam.

Depois de ter lido, compreendo o porquê do Mia ter demorado 3 anos para escrever esta história. É ler para compreender. É ler para sentir.



Obs. No dia em que acabei, comecei a ler a "Clarabóia" do Saramago.
Já lá vão mais de 100 páginas e não sei como é que se consegue parar. 

16 maio, 2012

O que é que me faz alterar a ordem da leitura?
O que é que me faz passar à frente Murakami, Saramago, Agustina?


Simplesmente, o novo livro do Mia Couto.
"a confissão da leoa" é a companhia para estes dias de Maio.  

“Pela Estrada Fora”

Aqui há uns tempos disse que estava a ler este livro. Acabei por demorar mais tempo devido às pausas forçadas, mas ontem acabei.

Este é um livro diferente. Tão diferente como quem o escreveu. E por ser diferente torna-se maravilhoso.

Jack Kerouac escreveu-o em três semanas e isso está na escrita. Sem parágrafos, sem capítulos, sem pontuação, às vezes. Fica-se sem fôlego à medida que avançamos nas páginas. Corremos com ele, ou melhor, com eles, pelas ruas da América do pós-guerra. O coração bate rápido pela intensidade da história. Uma história feita de improvisos, de liberdade, de viagens, de amizade, de loucuras, de paixões e de desilusões. Uma história feita nas estradas e por isso é que quem lê também fica sem conseguir respirar.

Este é um livro diferente e talvez impróprio para cardíacos.


Obs. Esta edição da "Relógio d'Água" merece ser comprada. Texto muito próximo do original e a tradutora explica-o muito bem logo nas páginas iniciais.

10 maio, 2012

coisas grandes

Tenho uma cabeça grande. Grande ao ponto de ter dificuldade em encontrar chapéus que me sirvam (é ver as minhas cenas nas lojas!). Esta cabeça grande tem dias em que fica pesada. Tão pesada que tomba para o lado esquerdo ou para o direito, conforme. É o pescoço que a arrasta pelos movimentos e este pescoço está cansado. Muito cansado. Cansado da incompreensão, da falta de tolerância, do silêncio nos corredores, das asas cortadas, do desacreditar dos sonhos e do acreditar que o mundo tem de ser pequeno, porque é assim que é.

Teimamos que o que vemos é apenas o que existe. Porque é que não podem existir outros mundos, outras cidades, outras ruas, outros caminhos, outras casas, outras pessoas? O mundo é grande. As cidades são grandes. As ruas são grandes. Os caminhos são grandes.

E já disse que a minha cabeça também é grande? Nem cabem chapéus... 

02 maio, 2012

«chuvilho»

Nesse dia, meu pai apareceu em casa todo molhado. Estaria chovendo? Não, que o nosso telhado de zinco nos teria avisado. A chuva, mesmo miudinha, soaria como agulhinhas esburacando o silêncio.

- Caiu no rio, marido? 
- Não, molhei-me foi por causa dessa chuva. 
- Chuva? 

Espreitámos na janela: era uma chuvinha suspensa, flutuando entre céu e terra. Leve, pasmada, aérea. Meus pais chamaram àquilo um «chuvilho». E riram-se, divertidos com a palavra. Até que o braço do avô se ergueu:

 - Não riam alto, que a chuva está é dormindo... 




Mia Couto
In "A Chuva Pasmada"

30 abril, 2012

descoordenada e descomplicada

No último dia do mês dos cravos e das chuvas, em que se recupera as saudades de uma viagem e se volta à rotina dos dias, ANAQUIM para-me aos ouvidos de forma simples e mais que perfeita. Os sons fundidos faz-me confundir os ombros com os braços e os braços com as pernas, desnecessariamente descoordenada. Letras com palavras em português, com certeza. Bem escritas e ditas numa voz limpa, tão limpa que se tivesse cor seria branca. Previsível dizer branca, mas foi para ser descomplicada. 

Dizem que sou uma miúda descomplicada. E isso, às vezes, é necessário. 



18 abril, 2012

estou a meio, portanto

Há um ano escrevi isto e pensei que ainda faltaria muitooooo tempo para dizer: Estou oficialmente a entrar no meu 3º ano de doutoramento. Pois, mas parece que esse dia é hoje (jááá?).

Muitas vezes perguntam-me quando é que acabo, como se fosse algo prestes a acontecer. A verdade é que não me imagino com a coisa escrita (entenda-se por coisa a tese) muito menos defendida. Nos entretantos, é ir saboreando cada conquista, repensando cada falha.


O ano que passa é feito destes entretantos.

Em Brasília construíram-se ideias, conceitos e teorias que vão marcar o meu doutoramento. Encontrei as pessoas certas e também isto me apercebi. Temos de trabalhar com as pessoas certas. A C. e o M. são essas pessoas. Até à distância trabalhamos em sintonia. Com o tempo tornam-se amigos.

Uns desarranjos pelo meio que foram precisos costurar; um ponto aqui, outro ali. E todos os pontos marcados me fazem pensar. E estão ali para me fazerem repensar.

Perceber que há certos lugares onde não encaixo. Não é ali que tenho de estar; não é ali que precisam de mim. E vejo isso nas conferências, nos projetos, nas apresentações, nos workshops que desbundam pela minha agenda.

É sentir que estou no caminho certo quando leio respostas de alunos e alunas que já estão no mercado, que são engenheiros e engenheiras. É ver nestas palavras o sentido crítico sobre aquilo que foram e que é preciso que outros sejam para melhorar o que fazemos. E esperar ansiosamente por mais respostas.

Este ano estão submetidos três artigos em revista. Trabalho até tarde, mas vale a pena. Vale sempre.
Até ao fim do ano vão ser mais uns tantos. Vou trabalhar até tarde, mas vai valer a pena. Vale sempre.

E todos estes entretantos são feitos em companhia.
Tenho a melhor equipa, as melhores pessoas, as melhores oportunidades.


E pronto. Parece que faltam dois anos.
Estou a meio, portanto.




17 abril, 2012

adormecida e acordada

Hoje falava-se d' "A Bela Adormecida". Hoje encontrei este poema da Adília Lopes (da melhor poesia que tenho lido nos últimos tempos): "A Bela Acordada".

Há quem diga que dentro de mim moram muitas pessoas; e eu confirmo: tenho a Adormecida e tenho a Acordada, sem de bela ter nada.



Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:

- Eu amo-te.

E iam com ela para a cama e para a mesa.

Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:

- Não gosto de ti.

E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.

A mulher pediu a Deus:

- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para

sempre.

Então Deus fê-la feia.

A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar

com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais

gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando

era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais

não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,

estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a

mastigar.

Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que

pescou o peixe.

Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,

descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a

mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o

peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe

foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe

morreu.

As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era

tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram

chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei

apaixonou-se pela mulher.

- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao

rei.

- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito

tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às

criadas.

E o rei convidou a mulher para jantar.

Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à

mulher quando as criadas se foram embora:

- Eu amo-te.

Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com

uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e

comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:

- Eu amo-te.

Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no

tapete de Arraiolos da casa de jantar.

09 abril, 2012

Potencializar é:

Ir escrever mais uns caracteres no artigo que tem de ficar pronto hoje (H-O-J-E) durante o intervalo do jogo do Benfica. 

[por isso, não me posso extender muito por aqui, sim?
Mas eu volto, quando a minha cabeça for ao sítio....]

31 março, 2012

muitas voltas e rodopios

Estou há dois anos para ler este livro e aconteceu só esta semana; e apenas porque acabei por encontrá-lo por uma pechicha. Na realidade não me apetecia dar quase 18 euros (os livros são mesmo caros, caramba!) por um romance dos tempos modernos. É aquele receio de uma aproximação aos Sparks ou às nossas Margaridas. Tudo isso me faz espécie.

Mas o David Nicholls foi uma bela e simples surpresa. A estrutura do livro está muito bem conseguida. E o conteúdo do romance em si ... também. É, de fato, um romance dos tempos modernos, mas com personagens bem reais, diálogos bem reais, acontecimentos bem reais. Chega a ser divertido e também faz pensar naquilo que todas as pessoas, em algum momento e por diversas razões, já pensaram: a vida dá  muitas voltas. E eu acrescento: e muitos rodopios.

Este livro foi particularmente bom para abafar as insónias da semana. Fui intercalando a leitura com o Kerouac - que tem uma escrita que me deixa sem respirar de tão intensa, mas sobre isso falaremos daqui a uns dias - e quando dei por mim já o tinha acabado.

Para quem quer ler uma boa história, para pensar em muitas voltas e rodopios, não deixem de ler o "Um Dia". Se puderem comprem um livro com a capa original. Não sei porque é que insistem em fazer capas com imagens dos filmes ... é que estragam tudo!


29 março, 2012

Toda eu sou doutoramento. 


E para ser mesmo eu ... tenho de ser outras coisas. 

24 março, 2012

Hoje criei um plano ambicioso de trabalho. Ambicioso por ser sábado. Ambicioso pelas implicações. Ambicioso considerando o meu cansaço crónico. Mas só sei criar planos ambiciosos, sejam quais forem as variáveis.

Estou quase a cumprir (até eu estou espantada!) e já estou a pensar no que fazer a seguir.
Apetecem-me coisas, muitas coisas, uma misturada de coisas e todas as coisas ao mesmo tempo (e isto não me espanta, sou mesmo assim).

Mas acho que vou ganhar coragem para escrever o conto que anda enfiado no caderno e na cabeça.
Acho que é hoje. Acabo de decidir que é hoje. Sim, é hoje.

21 março, 2012

Há dias em que gostaria de ter mais paciência.
Há dias em que gostaria de ter mais energia.
Há dias em que gostaria de ter mais palavras. 

Hoje é um desses dias.

18 março, 2012

é um livro gigante

Quando comecei a ler "A Queda dos Gigantes" fiquei desconfiada (como sempre!) se conseguiria ou não acompanhar a história. São tantas e tantas as personagens que pensei que iria de estar constantemente a consultar o início para ver quem era quem. Nada disso. O Ken Follett impõe uma fluidez na escrita difícil de encontrar. Em cada capítulo vamos conhecendo mais as personagens e quando demos por ela, são nossas. Só por isso este livro já seria gigante. Mas há mais. A forma como a Primeira Guerra é retratada faz-nos aprender mais; diria que, numa mistura entre realidade e ficção, conhecemos os bastidores da guerra que os alemães perderam. Só por isso este livro já seria gigante. Além disso, faz-nos viajar: Londres, Berlim, São Petesburgo, Paris, Estados Unidos, Estocolmo, Moscovo... Só por isso este livro já seria gigante. 

Comecei a lê-lo em Fevereiro e deixei-o por cá quando fui para o Brasil, por causa das mais de 900 páginas (factor impeditivo para quem quer trazer livros e cajus na mala). Quando na quarta-feira lhe voltei a pegar pensei que iria ter de recomeçar, pelo menos um capítulo para trás, só para me situar. Mas não foi preciso. As personagens estavam lá e em mim, como há cerca de 20 dias atrás. Só por isso este livro já seria gigante.

Não é dos melhores livros que já li, como muitos afirmam; mas é seguramente um livro gigante.
 


16 março, 2012

palavras catitas # 3

Desconsolo. 


Fez um sucesso e tanto no Brasil, quando eu disse que era um desconsolo quando a cerveja não vem gelada:

"Dianinha, mas que palavra poética! Vou adoptar" (dito com sotaque, claro) 

14 março, 2012

idas, voltas e vontades

Estive uns dias fora. Voltei ao Brasil a trabalho. Sabe bem ir. Conheci pessoas novas, estive em sítios novos, experimentei cervejas novas e aprendi tantas coisas que cresci mais uns centímetros.

O regresso sabe bem. Ainda não há espaço para recuperar as olheiras e o cansaço. Sinto-me a trabalhar como uma borboleta irrequieta. Uma enorme vontade de ler as revistas que entretanto chegaram, de acabar as últimas 300 páginas da "Queda dos Gigantes" e de continuar o livro do Kerouac que comecei por lá. Uma vontade ainda maior de aproveitar este sol de inverno, de correr no parque, de fotografar as ruas e sentar-me a comer gelados do Spirito, de escrever o conto que está enfiado no meu caderno.

Nestes entretantos fico-me pela vontade; vou continuar a trabalhar como uma borboleta irrequieta.
O que vale é que gosto mesmo do que faço.

20 fevereiro, 2012

Anatomia dos Mártires


A "Anatomia dos Mártires" foi o primeiro livro que li do João Tordo.
Convenceu-me logo pela capa, tão macia que dá vontade de fazer festinhas; depois convenceu-me pelas palavras novas que aprendi, pela história que vai prendendo à medida que as páginas avançavam e a considerar a quantidade de páginas dobradas (sim, eu dobro as páginas quando não tenho um lápis à mão para sublinhar) é porque gosto mesmo do que o rapaz escreve.

Isto deixou-me a pensar ...

Em Portugal há escritores. Vivos.
Não é só o Eça que é bom a palavrar. Ou o Camilo. Ou o Saramago.
Temos o João Tordo. E o Valter Hugo Mãe. E o José Luís Peixoto.
E outros e outras que ainda tenho de descobrir (e, por favor, não me venham cá com margaridas que isso faz-me espécie!).

E enquanto estão vivos e vivas devem ser lidos e lidas e reconhecidos e reconhecidas; para escreverem ainda mais.

Voltando à "Anatomia dos Mártires"...
Para saber mais aqui.



PS. Bem disse que "A Queda dos Gigantes" ia ocupar todo o mês de Fevereiro. Faltam umas 300 páginas, mas estou a gostar tanto que cada vez que leio capítulos tenho de partilhar.

17 fevereiro, 2012

wrong number

Meti na cabeça que queria umas galochas azuis escuras e que tinham de ser Hunter porque é o modelo mais catita que existe. A mana maravilha quis oferecer pelo Natal. Corri mundo e golachas azuis escuras da Hunter nada. Decido mandar vir do UK. Chegaram ontem, numa caixa maravilhosa, lindas que só.

Mas ...

Ficam-me grandes. Fiquei tão amuada que a mana maravilha até disse num lamento que afinal não era só meu "Oh Di...". Acho que devo ter o pé mais estranho que existe. Tenho calçado 36 37 e 38.

Agora vão para trás e mais umas semanas de espera até chegar ser o número certo.

16 fevereiro, 2012

a minha outra Diana

A minha prima de terceiro grau, apenas uns meses mais nova do que eu, é a minha outra Diana.
No tempo das Dianas pequeninas brincávamos com os saltos altos da minha mãe, andávamos de patins na Amorosa, partilhávamos gelados, jogávamos raquetes na praia e os livros sempre fizeram parte de nós.
Ontem falávamos à distância. Dizia-me ela: 

"Querida, estou em Maputo e adivinha quem é que almoçou ao meu lado? O Mia Couto ... Lembrei-me logo de ti..."

Depois do meu momento de histeria (e mandaste beijinhos e deste-lhe abraços...?) falámos de Moçambique e como essa terra prende. Falámos de trabalho. Falámos de regressos. Falámos do antigamente, desse tempo das Dianas pequeninas. A conversa terminou com uma frase que ainda me está pendurada na alma:

"tu é que me deixas recordações que depois chamam por ti"


 Vou chamar-te sempre de minha outra Diana. 

14 fevereiro, 2012

Em 27 anos nunca tive tanta tosse como nos últimos cinco dias.
Só me apetece dizer palavras feias ... vou ficar quietinha que é melhor, sim?

07 fevereiro, 2012

O Valter Hugo Mãe escrevia um dia destes que tinha saudades de adorar mais livros de poesia novos.
Acabei por admitir para mim mesma que me foi acontecendo o mesmo e que, por isso, andava a ler menos poesia. Irremediavelmente volto aos mesmos poetas que, de tão perfeitos, fazem-me decorar versos igualmente perfeitos.

Foi então que encontrei a Adília Lopes (através do Valter Hugo Mãe) e fiquei entre o impressionada e o emocionada com os afectos transformados em versos:


"Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar"


[se um dia escrevesse poesia, gostava de escrever assim]

01 fevereiro, 2012

páginas para fevereiro

No fim-de-semana suguei a "Anatomia dos Mártires" do João Tordo (sobre o qual falarei para breve).
Há dois dias que não pego num livro, porque o trabalho tem me consumido; e porque eu tenho consumido séries.

Homeland tem sido a escolhida, daquelas em que a ordem dos episódios tem de ser cumprida.
Há muito que não fazia isto e já me lembro porquê: é viciativo!

Para livros a escolha para o mês 02 vai para ... "A Queda dos Gigantes", Ken Follett.
E considerando o número de páginas, tenho para mim que me vai ocupar o mês inteiro.



31 janeiro, 2012

Hoje percebi que a minha orientadora também sabe dar elogios. Subtis, que quase só duram um segundo; se não tivermos atentos, o elogio escapa-se pelo tempo adentro. Este segundo soube particularmente bem depois de meses a tentar mostrar a minha perspectiva, a convencer que era este o caminho que tinha de fazer.

Num doutoramento este é um dos aspectos mais importantes: saber onde estamos e para onde queremos ir. E este não é um caminho isolado. Estamos juntos e faltam dois anos e dois meses.

A intensidade está a aumentar. Tenho um plano de escrita de artigos ambicioso; mas eu gosto de planos ambiciosos e estou pronta a cumpri-lo, nem que prescinda de horas de sono, de horas agarrada a livros, de horas a sugar séries (sim, voltei ao consumo diário de séries e não sei onde isto vai parar!).

A pressão está em cima de mim e agora sei que só vou deixar de a sentir no dia em que defender a tese. Este parece-me um dia tão longínquo que se torna irreal; mas na realidade está já ali e eu estou a preparar-me para esse mesmo dia.

27 janeiro, 2012

1Q84

Depois de ter lido, no final do ano passado, o "Kafka à beira-mar" do Murakami percebi que tinha de ler os livros todos do senhor. Acabei ontem de ler o "1Q84".

[sim, comecei pelo mais recente porque sou assim, gosto de desordem, voltas e reviravoltas]

Quando acabei a última página ainda não era meia-noite. Lavei os dentes, vesti o meu pijama da Mafalda e abri a janela só para confirmar se haveria ou não duas luas no céu. E com esta evidência assumo que as histórias do Murakami são mesmo viciativas.

25 janeiro, 2012

o nosso destino

Aqui há uns anos, não me lembro bem há quantos, li na revista Ler uma entrevista com o António Lobo Antunes que dizia que gostava desta terra. "Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto", dizia ele.

Somos feios. Somos pequenos. Somos estúpidos.

Temos um sistema judicial que nos faz aclamar aos céus. Temos um sistema de saúde tão frágil como os meus miolos. Temos um sistema de educação (que me diz particularmente) em voltas e reviravoltas. E falar da política que temos é como ficar sem metáforas que a ilustre. Na rua vemos pessoas com a fatiota cuidada, com a pele a brilhar, mas muitas delas nem lêem um jornal. Nos cafés ouvimos falar da crise num tom carregado, como se não houvesse nada a fazer, como se fosse esse o nosso destino.

Apesar de feios (mas com fatiota cuidada), pequenos e estúpidos, há qualquer coisa que nos faz gostar desta terra. Só é pena que muitos se esqueçam disso mesmo: do que nos faz gostar desta terra. E que o digam com orgulho! Mas não, não dizem; não dizem porque é este o nosso destino.



[não admira que haja tantas pessoas a fugir deste nosso destino]

24 janeiro, 2012

Eu faço parte


| 21.01.2012 |
Abertura Oficial
Guimarães Capital Europeia da Cultura

































E este momento da história não podia ser mais perfeito para voltar a fotografar à séria.

20 janeiro, 2012

palavras catitas # 1

Há palavras que gosto de dizer, que são quase preferidas, que adoro repetir e desbundar.
Catita é uma delas ... não sei se tinham reparado, hum?

Mas há mais, daquelas que até precisam de um contexto e um cenário específico para serem utilizadas.  E é dessas que vou aqui apresentando, sempre que me lembre e sempre que não tenha mais nada de jeito para dizer.

Então a primeira palavra catita é ....
Chinfrim.


Se há palavra que tem sonoridade é esta. Quase que cada letra é uma nota musical.
E a menina adora!

19 janeiro, 2012


Cada vez que recebo feedback da minha orientadora sinto-me uma formiga sem miolos.

Se for em papel, está tudo riscado.
Se for em formato digital, só se vê destaques a amarelo e depois comentários com letras maiúsculas seguidas de pontos de exclamação e interrogação; e são tantos que parece que saem pelas margens.

Estou a hiperbolizar, mas a parte de me sentir sem miolos, é verdade.

quem ainda não leu este texto é casca de batata




Amor burguês

Havemos de engordar juntos.

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos.

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

Nós acreditávamos.

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.


José Luís Peixoto