18 setembro, 2012

Portugal não me (nos) trata bem

No sábado, enquanto meio país estava na rua, eu estava em Cambridge enfiada numa sala a trabalhar. Talvez por isso, nestes últimos dias, tenho absorvido tudo o que é notícias, imagens, crónicas, opiniões, números e coisa e tal sobre a Manifestação (até a moça que abraçou o polícia). E confesso que fico sempre emocionada. Deveríamos sair à rua todos os fins-de-semana, mostrar a vontade esfrangalhada, o peso da vida, a esperança morta.

Há muito tempo atrás li um artigo de opinião (não me lembro onde, nem de quem) em que o autor contava que, num jantar com um amigo que agora vivia na Nova Zelândia, este lhe perguntava: "e o teu país trata-te bem?". Desde então que me questiono sobre isso. Gosto do meu país. Gosto das pessoas. Gosto da comida. Gosto dos sotaques. Gosto de andar a pé pelas ruas. Mas é um país que não me trata bem. Sobretudo quando quem me põe o dinheiro na conta ao final do mês é o Estado. É muito ingrato fazer investigação neste país. Primeiro é conseguir a bolsa - sete cães a um osso. Depois é conseguir que a FCT nos finalize o contrato - uma eternidade. E depois temos de fazer muito, muito mesmo, para conseguirmos ser os melhores. E fazer parte dos melhores, em investigação, infelizmente, significa produzir. Por outras palavras, quem escrever mais artigos em revistas-com-mais-pinta-internacional, ganha. Já para não falar na angústia de pensar "e a seguir vou fazer o quê?". Suspiro. Muitas coisas poderiam ser faladas a este respeito, que é o meu e de muitos outros bolseiros de investigação, cuja vontade é arrumar os livros, a roupa, a cabeça e o computador e zarpar daqui para fora!

Mas também há as inquietações das outras pessoas, que este país também não trata bem. Ontem estava no supermercado e um senhor, com uma bengala gasta pelo tempo e com uma camisola que parece ser a única que existe, pedia no talho aqueles restos de carne que não se pagam. Quase envergonhado, justifica-se para comigo dizendo: "Sabe menina, isto já dá uma bela sopa". E eu fiquei com o coração feito em pó. E depois saber que um pai não pode mandar a filha (que é só a melhor aluna da escola) para a Universidade porque não tem como fazê-lo. É ouvir perguntas dos estrangeiros (no Brasil, em Londres), "e que tal vai Portugal?", e ter de responder que batemos no fundo, embora o diga de forma mais poética porque na verdade sinto é vergonha. Sinto vergonha de fazer parte de um país que não trata bem as suas pessoas, que as varre para outros países porque batemos no fundo (e agora não preciso de o dizer de forma mais poética). 

Custa dizer isto, com ou sem metáforas, de um Portugal que eu gosto...
Mas que não me (nos) trata bem. 

3 comentários:

Eduardo disse...

Infelizmente, Diana, Portugal somos todos. Tu tens razão no que dizes, mas tenho a certeza de que há muitos portugueses que vão para a rua dizer que estão mal, que são os primeiros a esticar a mão ao Estado a pedir (mais) e que, nas pequenas coisas, só pensam neles e esquecem-se que a sociedade só funciona se todos quiserem que ela funcione. Fuga aos impostos, economia paralela, cunhas, essas coisas todas de que ouvimos falar todos os dias, começam em nós. E enquanto não pararem em nós, Portugal há-de continuar a arrastar-se no fundo.
Tu tens razão, não me entendas mal. Só que a verdadeira mudança de que o país precisa não se faz numa tarde, numa manifestação, nem sequer num ano de manifestações. Vai levar 30, 40, 50, 100, 1000 anos até que as mentalidades chicas-espertas e do desenrascanço sem olhar a meios sejam bichos extintos em Portugal.

Dianinha disse...

Sim, tens razão. Na verdade, acho que já não há palavras para materializar esta esperança morta. E por não acreditar mais (sim, eu uma otimista incurável, já atingi este ponto) é que acho que deveríamos sair à rua todos os fins-de-semana e dias de semana, durante o tempo que fosse preciso! Os trafulhas sempre existiram e vão continuar a existir ... não é que esteja a desculpá-los (nem pensar!) mas a verdade é porque temos um país, esse que é de todos e que somos todos, que permite eles se alimentem a toda a hora. E o problema é que para dar a esses, tiram a quem precisa! E isto é uma porcaria (para não dizer palavras feias!). Mesmo aqueles que emigram, podem encontrar realidades imperfeitas, mesmo com economias promissoras. Exemplo? O Brasil. Especialista em corrupção mas miles de portugueses a irem para lá.

Deixei de acreditar, mas não vou em utopias. Preocupa-me questões mais práticas: um TAC à cabeça ser-me negado por duas vezes, pessoas que não têm o que comer, não haver acesso à educação.... isto sim, faz-me dizer "Que merda" sem sequer hesitar que merda é uma palavra feia.

Olha, valha-nos o Benfica que nos encha de alegrias e nos faça bater palmas de emoção :)

Eduardo disse...

A única coisa em que não acredito é na incorruptibilidade de quem, tendo acesso ao Poder, lá assenta arraiais. Acho que há potencial de trafulha, aldrabão e corrupto em todos os que estão metidos no jogo partidário e de muitos que não estão mas falam contra os que lá andam. É como deixares crianças fechadas numa sala com um pudim em cima da mesa. Quantas é que não metem lá a mão, realmente?

Viva o Benfica. Dia 2 lá estarei, como se tivéssemos lateral esquerdo! =)