14 outubro, 2013

sem avental : arroz de especiarias

Hoje aproveitei uma promoção e comprei o livro do Henrique Sá Pessoa Ingrediente Secreto 1. É, isto da culinária está a tornar-se uma bimbice de tamanho XL, com estes sintomas de comprar livros sobre o assunto. Ah, mas vale a pena! Este está por uma pechincha na FNAC (para quem interessar, menos 30%).

Gosto do conceito à volta do Ingrediente Secreto e hoje como tinha de fazer arroz decidi fazer um arroz diferente. Estava com saudades de arroz basmati -  que, se me deixarem, eu como sem parar. Procurei então o ingrediente secreto "arroz". Arroz de gambas com chouriço, risoto de abóbora, arroz frito com molho de soja e legumes, arroz com atum, arroz frito com frango e brócolos e arroz de especiarias com dourada. Dlim Dlim! É mesmo isto. Já disse aqui que não sigo receitas e foi mesmo isso que fiz. Em vez de douradas a Mami ia fazer pataniscas de bacalhau (ai, o que gosto disto!). E na receita original do arroz mudei mais umas tantas coisas, nomeadamente tirei a canela, as ervilhas e em vez de coentros (que não tinha) usei salsa.

Então é mais ou menos assim:

* um refogado com meia cebola picada, um fio de azeite e um fio de oléo vegetal
* depois de a cebola ficar dourada acrescentar uma mistura com: uma colher de chá de cominhos, uma colher de chá de caril e um dente de alho picado
* colocar o arroz basmati e envolver tudo juntamente com três cascas de limão
* acrescentar água já quente com sal
Dica: eu faço tudo "a olho" mas para quem gosta de ser rigoroso nas medidas - uma parte de arroz para uma e meia de água
* quando estiver a ferver reduzir o lume e colocar pimento picado e salsa (a receita original diz para colocar ervilhas e acredito que com espinafres ou qualquer outro legume fique ótimo!)
* deixar cozer e verificar os sabores

Ficou tão e tão bom. Mas eu sou supeita: adoro especiarias (com excepção de canela) e adoro pataniscas.




[dizem que comer arroz do tacho sabe ainda melhor]

10 outubro, 2013

sem avental : bifes de atum

Um dos momentos de que gosto particularmente para pensar (para além das viagens de carro com música da boa) é enquanto cozinho. Gosto de cozinhar. É das poucas coisas para quais o meu nível de paciência se transforma. Sou capaz de estar minutos sem fim a mexer uma panela em lume brando ou picar alho até ficar quase invisível sem nunca me queixar.

Na cozinha adoro experimentar coisas novas, inventar (nunca sigo uma receita à risca), as quantidades vão "a olho". Adoro facas grandes, sentir os cheiros a crescer e a mudar. Adoro empratar com pinta e nunca uso avental (daí o nome desta nova rubrica aqui no estaminé). Adoro os segredos de um prato: porque é que se tem de cortar o peixe assim e não assim, porque é que se mexe assim e não assim... adoro estas dicas. Por isso é que vejo programas de culinária e até compro livros do Jamie Olivier que é espetacular a cozinhar - talvez por já ter ido a um dos restaurantes dele em Londres. Além disso, os livros dele estão cheios de dicas catitas.

No outro dia fiz uma receita dele. Comprei bifes de atum e depois não sabia bem o que havia de fazer com eles, porque na verdade eu gosto é daquilo cru e às tiras, ou seja, sashimi (oh pa mim a salivar!). Por isso, fui ao livro do Jamie e encontrei uma receita das boas. Não a segui à risca, mas foi assim:

* No almofariz alho picado, malagueta (sem semente), sal e sumo de limão.
* Juntar manjericão, salsa e coentros finamente picados (eu sou apaixonada por ervas, por isso, uso e abuso!).
* Barrar o preparado de ervas nos bifes de atum.
Dica: o ideal é colocar o atum dentro de um saco com o preparado e misturar bem, deixando uns 30 minutos em repouso para que o atum absorva todos os aromas.
* Colocar o atum numa frigideira bem quente só com um fio de azeite. Basta deixar o atum cozinhar um minuto de cada lado. Tempo a mais ficará seco, como atum de conserva.

O acompanhamento pode ser ao gosto. O Jamie sugere batata cozida ou frita. Eu fiz salteadas com tomilho mas isso fica para outro pensatempo.



02 outubro, 2013

o vício das séries

Nos dois meses em que estive no Brasil era raro ligar a televisão no apartamento nº 11 daquela rua cujo nome já não me lembro. Cada vez que ligava a televisão pensava "ainda me queixo da televisão em Portugal". Telejornal? Uma comédia. Os jornalistas dão palpites pessoais e reagem de forma emotiva às notícias - que não é preciso dizer que são só desgraças. Programas de futebol, o nível ainda piora e chega a ser cómico. Os filmes e as séries, na sua maioria, são dobrados. De manhã há programas parecidos com a Fátima Lopes e a Júlia Pinheiro e essas cenas (agora sei onde foram buscar). Sobram as novelas. São boas, muito bem produzidas, mas eu não gosto de ver (só se for a Tieta e o Roque Santeiro - essas sim, para cima de espetaculares!).

Foi assim que voltei a dedicar-me às séries. Vi as três temporadas da "Guerra dos Tronos". Revi alguns (muitos!) episódios do "Seinfeld" porque é sempre espetacular (e está para vir a série que ultrapasse esta). Quase que acabei a "Crossing Lines" e ainda vi a primeira temporada da "Downtown Abbey" (e ontem comecei a segunda temporada e foram dois episódios de uma vez).

Isto é uma recaída no vício. Não gosto de novelas, mas as séries dão cabo de mim; mexem comigo cá dentro. Às vezes preciso que me digam: Diana, nada disto é real, está bem? Mas mesmo que digam eu vou continuar a chorar se alguém morre de forma inesperada, porque sou uma lamechas (no penúltimo episódio da última temporada "Guerra dos Tronos" até soluçava). Vou continuar a rir-me com as coisas mais parvas (o Kramer do "Seinfeld" é mesmo o meu preferido e a cozinheira do "Downtown Abbey" já me entrou no coração). Vou continuar ansiosa pelo próximo episódio (ai que já começou a nova temporada do Homeland).

Se eu deixar de dormir para ver séries, eu prometo que retomo as minhas pausas para rehab

29 setembro, 2013

voltar às histórias

Não tenho andado em leituras, por isso, não tenho falado sobre livros. Na verdade, Agosto e Setembro foram inundados de leituras sobre competências (para a santa da tese, pois claro), mas duvido que queiram ler sobre isso.

Esta semana voltei às histórias. Da estante "lista de espera" escolhi a máquina de fazer espanhóis do Valter Hugo Mãe. Sim, eu sei que ele ainda agora lançou um livro e que deveria ser esse que devia estar a ler. Acontece que ainda não o comprei, apesar de ter muita, muita vontade, pelo tanto que já li dos críticos e pelo próprio, em entrevistas. Gosto cada vez mais do seu palavrar.

E por falar no Valter Hugo Mãe:

Na semana passada estava no aeroporto de Guarulhos em S. Paulo pronta para o regresso. A hora de embarque chegava e eu lá estava sentada, entre um café de loja de aeroporto e os olhos a vaguear ao meu redor, a observar pessoas - é coisa que gosto de fazer para encontrar novas histórias. A senhora ao meu lado, portuguesa e com a filha lá no Brasil, impaciente esperava e reclamava do atraso e eu ouvia-a com sorrisos cúmplices. E, no entretanto, passa à minha frente o Valter Hugo Mãe. Eu sabia que naquela semana ele tinha estado em S. Paulo na Pauliceia Literária 2013. Pensei se iria no mesmo voo que eu; mas claro que vai! Se não o que é que ele estaria ali a fazer? Às vezes, até nos esquecemos que algumas pessoas que escrevem, que cantam, que actuam, que pintam, que falam (aquelas pessoas fixes, portanto) também andam de avião no meio dos comuns mortais. Depois cruzei-me com ele na imensa fila e tive vontade de lhe falar; mas sou uma miúda que não sabe fazer essas coisas.

Sobre o livro:
Em outubro dou notícias. É um bom livro para se ler no outono.

16 setembro, 2013

vem aí a tese # 5


Fazer um doutoramento não é fácil (embora hajam pessoas que pensem que sim) e eu ampliei esta condição. De vez em quando dá-me para tremer o queixo com os meus cinco minutos de pânico. O processo é mais ou menos assim:

O meu projeto de doutoramento é ambicioso. Ouvi isto muitas vezes. Eu sabia que era, ou melhor, era assim que eu queria que fosse. Tenho três grandes dimensões que se relacionam de tal forma que tudo tem de ser integrado se não, não valeria a pena inclui-las a todas. X com Y; Y com Z; Z com X; e X com Y e com Z. Deu para entender? Huuum, se calhar não mas é que é mesmo isso que acontece. E depois ainda temos os participantes no estudo. Podia ficar-me só com os alunos, ou só com os professores, ou só com os profissionais. Mas não, quis todos, todos, todos. Agora que mergulho nos dados, que sonho com os dados, que respiro os dados, pergunto-me: ”no que é que te meteste, miúda?”. 

Pode dizer-se que os dados é coisa do demónio. Mexem com tudo o que já parecia estar certo. A estrutura da tese estava linda maravilhosa. Mas isto era o que pensava até mergulhar, sonhar e respirar os dados. Mudei a estrutura da tese pela enésima vez, esperando que seja a última.

Vou pensando com as mãos e com o papel e com os post its (já disse que não sei estar sem post its?) e tudo vai ganhando forma dentro da minha cabeça. E é aí que a preocupação também ganha forma: E se não conseguir escrever toda esta clareza que habita na minha cabeça? E se não consigo entregar a tese? E se não for aprovada? E se …

E, de quando em quando, são assim os meus cinco minutos em que tremo o queixo de pânico.

16 agosto, 2013

pelo interior de Sampa

Quem precisa de uma cidade grande? Há umas semanas atrás diria “eu, eu, eu!”. Mas agora estou em Lorena. Onde? Sim, Lorena. É uma cidade que nem aparece nas notícias e é mais ou menos assim:

Em Lorena não há prédios altos, nem cinemas, nem centros comerciais e as lojas fecham antes de anoitecer (aqui a noite vem cedo). Em Lorena há muitas bicicletas, são muitas e algumas simplesmente aparecem em contramão. Em Lorena há uma linha de comboio que transporta mercadorias que me acorda todos os dias pela madrugada. Quando tento adormecer vêm os pássaros pela manhã que regateiam e discutem como gente grande. Em Lorena vivo no apartamento 11 e a Doutora Ana, que é dentista, é minha vizinha e querida que só ela. Em Lorena os catraios brincam na rua, de chinelos e calções do tamanho acima; brincam com papagaios de papel e eu gosto de ficar a olhar. Em Lorena o coração da cidade é uma praça e numa das esquinas dessa praça tem uma padaria com um pão que me consola de tão bom que é e também tem bolo de milho. Em Lorena o horizonte é marcado pela serra, tal como aparece nos meus desenhos – aqueles que fazia, cheia de orgulho, quando tinha uns 6 anos. Mas o que Lorena tem são as pessoas; umas feitas de outros lugares, outras feitas aqui mesmo e de onde nunca saíram. Andam na rua e soltam sorrisos, dizem “Oi!” sem me conhecerem; e as que se conhecem acabam por se tornar próximas, amigas, porque começam-se a partilhar, de forma natural, histórias e abraços. E há mais: em Lorena há sushi e episódios de Game of Thrones.


Quem precisa de uma cidade grande, afinal?   



17 julho, 2013

Migalhinha da Tia # 3


Estive algum tempo sem escrever, mas todos os dias penso em ti e na tua mamã (que é só das pessoas mais maravilhosas que conheço, mas um dia falo-te melhor sobre ela). Não, não é exagero; é mesmo todos os dias. Penso, por exemplo, no momento em que estarás cá fora, pronta para conhecer este mundo e todos os outros que queiras conhecer.

Ainda não nasceste mas já me deste momentos lamechas que fazem bem ao coração. Sentir os teus pontapés ou dizer o teu nome alto é sentir uma leveza que nos ultrapassa e nos faz relativizar todas as desgraças e maleitas desta vida; sim, a vida às vezes é uma chatice, mas não te preocupes que, como já te disse, estamos aqui para ti e, acredita, há mais coisas boas que chatas (mas um dia também te falo melhor sobre isto).

Por isso, Maria Antónia, ainda bem que existes. Fazes aqui a Tia Di feliz sem exaustão

06 julho, 2013

nas noites quentes de Julho

"O Ano Sabático" foi o segundo livro que li do João Tordo. Desde que saiu que me andava na mira, mas é raro eu comprar um livro só porque sim; é mais porque tem de ser. Com este livro, que acabei ontem de ler, foi assim: num dos dias das mini-mini-mini férias de são joão inundei-me de revistas num bar de praia e uma delas, já antiga, trazia uma entrevista extensa do João Tordo onde falava do livro e gostei dos pormenores pessoais que a história tinha. Na semana seguinte fui à FNAC (já não me lembro fazer o quê) e comprei-o. Comecei-o a ler logo a seguir ao "Leite Derramado". Foi num instante e foi um belo começo das leituras nas noites quentes de Julho.

O livro é bom, muito bom. Talvez por gostar também da escrita do João Tordo e nota-se que tem um registo próprio.O livro está dividido em duas partes e a primeira parte, para mim, está completamente genial. Muitas personagens, mas não nos perdemos na história. E muito do autor está ali: também o João Tordo toca contrabaixo e tem irmãos gémeos, uma irmã e outro irmão que não sobrevivera ao parto - era esta a informação que estava na entrevista e que logo me ligou à história. Depois há muito de ficção. Gosto dos pormenores como o Mateus chamar o contrabaixo de barco baixo; gosto da música ter o nome da empregada; gosto da ideia do ano sabático, porque de algum modo foi o que também fiz antes de entrar para o doutoramento (isto sou eu numa identificação pessoal com o livro). No final da primeira parte há um twist (que obviamente não posso contar) que quase leva o leitor à loucura. Nessa noite tive de continuar a ler. Não estava a perceber o que estava a acontecer. De tal como que rabisquei um ponto de interrogação no final dessa parte. Foi quase difícil de digerir e ainda o é, agora que penso na história. Um autor que consegue isto com o leitor é porque tem de ser bom.
Levada pela curiosidade comecei logo a segunda parte; trouxe uma cadência diferente, relatada por uma pessoa distante da história, mas próxima de uma das personagens. Mas penso que isto também faz com que o leitor também se distancie. Então, sente-se quase que uma quebra; depois daquela intensidade obsessiva da primeira parte, aqui é quase um despreendedimento, como quem prepara uma despedida. Talvez tenha sido essa a intenção do João Tordo.

É um livro sobre obsessão e eu li de forma obsessiva.

01 julho, 2013

complexamente simples e compreensivelmente emocional

O Chico canta. Mais! O Chico escreve. E ainda mais! O Chico é.
Ofereceram-me o "Leite Derramado" no Verão passado, quando estava  no Brasil - precisamente esta edição da Companhia das Letras.

Li em menos de uma semana - uma semana apanhada com dois dias de praia na Comporta onde é fácil, muito fácil ler com os pés enfiados na areia - esta história que atravessa gerações.

Para quem leu "Cem anos de solidão" e outros semelhantes, cheios de personagens, de sobrenomes e com imensas e imensas páginas, vai gostar da história do Chico... não, desculpem, da história do Eulálio. O "Leite Derramado" não é mais nem menos do que as suas memórias em mais de cem anos de vida; uma vida em Copacabana, na baía de Guanabara, e noutros lugares, com a sua mãe, com a sua mulher, com a sua filha, com o seu neto, com o seu bisneto, com o seu tetraneto. E com as suas fotos, os seus cheiros, as suas exigências, as atrapalhações, as suas contrariedades, as suas confusões, as suas confissões... naturais de quem está numa cama de hospital a contar histórias que ninguém quer ouvir (só mesmo quem as lê, como se fosse um segredo).
O Chico em poucas páginas conta uma história (ou muitas - depende de quem estamos a falar); muitos escritores a contariam de forma lógica, perfeita, detalhada. O Chico não. O Chico escreve como canta, com falhas e fora de ritmo: complexamente simples e compreensivelmente emocional. Assim é o "Leite Derramado".