09 outubro, 2012

Toda a gente alguma vez já disse: "hoje não deveria ter saído de casa". Pois eu acho que deveríamos de ser avisados desses dias e marcar na agenda para não esquecer. 

Não é que hoje esteja num desses dias, mas há coisas que me afligem e me fazem querer não sair de casa, que é como quem diz, não querer ver o mundo. São tantas que lhes perco o rumo dentro do meu raciocínio e depois não consigo estruturar o pensamento - coisa que posso gabar-me de conseguir fazê-lo bem, ou pelo menos conseguia. Talvez precise de ir ao IKEA comprar umas caixas daquelas coloridas e catitas e começar a arrumar as coisas, uma de cada vez, sem lhe perder o rumo. E depois logo se vê se precisam de uma caixa maior ou mais pequena; se precisam de ir para o lixo ou para a máquina de lavar.

E hoje que chove sem parar... e ainda por cima ponho-me a ouvir Jeff Buckley e Bon Iver. Está mal. Não combina. Acho que secretamente vou me por a dançar isto e assim e aqui (3:18):


 

05 outubro, 2012

da república até hoje

Há muito muito tempo atrás, um conjunto de pessoas descontentes, teve a força e a coragem para deitar abaixo uma monarquia e mudar um país inteiro. Acreditavam que Portugal poderia ser mais e com razão. Hoje comemora-se a Implantação da República e pela última vez será um feriado nacional.

Fiquei a pensar...

Depois da República, depois da Ditadura e depois de todos outros momentos na nossa história chegamos a um país com auto-estradas, com caminhos-de-ferro, com estradas antigas conservadas, com mar a inundar parte do "rectângulo", com escolas, com universidades, com fábricas, com hóteis, com restaurantes, com museus, com quintas onde ainda se vindima, com escritórios em prédios quase altos, com castanheiros, com oliveiras e outras árvores que não sei o nome, com lugares em que somos nós a pôr a gasolina no carro, com cafés gourmet, salas de chá ou até mesmo tascas, com internet em cada canto e em movimento, com vinhos e muitos premiados, com cidades culturais, cidades com metro, cidades com neve, cidades desertas. E todas estas cidades livres. Sim, somos um país livre.

Mas, e as pessoas deste país? Têm força e coragem?
Ouvir falar, vale a pena o António Nóvoa e atrevo-me a dizer "só".
Fazer, há que reconhecer que, e ousando utilizar uma expressão bem popular (eufemismo para calão), "é preciso ter tomates" para fazer as malas e ir, ir para fora daqui. Contudo, reconheço que quem fica tem ainda mais coragem. Apesar de ver as pessoas cansadas, algumas angustiadas, muitas não deixam de dizer "Bom dia". Fala-se da austeridade, do Gaspar, do Passos e dos outros compinchas e começam os palavrões em formato de desabafo. Até a mim me saem, numa expressão de esperança morta. As pessoas aguentam-se estoicamente, fazendo contas,  preparando, suando. As pessoas reclamam, fazem greve, manifestam-se. Mas as pessoas até riem quando hoje viram a bandeira ao contrário.

Haja bom humor, paciência, coragem e liberdade.

02 outubro, 2012

ser Outono

Hoje já faz um bocadinho de frio. Já lembra o Outono à séria. Só faltam as folhas no chão para eu calcar, ouvir estalar até quase esfarelar. Está bom para as mantinhas, portanto. Estava capaz de tirar as botas (sim, já ando de botas porque sou uma ser humana que sofre de frio mais do que a maioria), encolher-me num cantinho, como que escondida, e começar a ler o décimo capítulo d' "O Filho de Mil Homens" do Valter Hugo Mãe.

É tudo o que me apetece. Aliás, é o que se deveria fazer no Outono: ler até à exaustão num cantinho qualquer, sair à rua só para esfarelar as folhas e até mergulhar nelas quando estão organizadas em forma de núvens, comer marmelada com marmelada, olhar e cheirar os dióspiros (mas sem comer, não gosto) porque me faz lembrar a minha avó. 

É tudo o que me apetece: ser Outono. 

29 setembro, 2012

O Grande Gatsby

Era daqueles livros que sabia que tinha de ler, mas acabava por nunca acontecer. Isto durante anos. Até que no início de Setembro aconteceu. A andar numa rua no centro de Guimarães esbarro numa livraria escondida, sem nome (pelo menos eu não vi em lado nenhum) e sem ordem, como se os livros se mexessem a toda a hora sem nos apercebermos. Foi de lá que então veio "O Grande Gatsby", da Presença.

Para quem já leu, não é preciso dizer o quão bom este livro é. Não dá para resistir e gosta-se tanto que quando se lê a última página ficamos a querer mais. Para quem não leu, apenas digo que o leiam quando vos vier parar às mãos, sem se aperceberem.

Como disse, estive anos a querer lê-lo mas sem o ler, até que aconteceu. Acredito que há livros que temos de ler na altura certa, porque traz mais do que o próprio livro. Traz momentos que o tornam imortal. No meu caso, a altura certa foi quando passou a existir uma livraria desconhecida e caótica (uma maravilhação!) e esse livro me veio surpreendentemente parar às mãos. E foi assim que "O Grande Gatsby" se tornou imortal dentro de mim. E é tudo o que este livro merece.

26 setembro, 2012

impaciências

Sou uma miúda impaciente. Tanto, que já consigo identificar em mim os sintomas. E aí, começo a engolir e vai tudo para dentro. Não admira que depois grite no osteopata cada vez que me mexe nas costas e no pescoço. E depois também há todo um fenómeno na cabeça. Diz o meu neurologista que os meus vasos estão a ficar fraquitos pela tensão que faço na parte superior. Por isso, sou uma miúda impaciente com contracturas eternas e cefaleias vasculares.

Tudo isto me fez reflectir sobre a minha impaciência. Acho que está relacionado com o meu pragmatismo. Por isso, não tenho paciência para:

- coisas repetidas (excepção: episódios do Seinfeld)
- músicas da Adele (e suas semelhantes)
- aquela cor trigre em tudo o que é roupa (que epidemia!)
- snobismo (em palavras, gestos e acções)
- o orgulho de quem não sabe pedir desculpa quando deve pedir (aqui a impaciência mistura-se com nervosite)
- o meu cabelo quando atinge estado de Chewbacca (já para não falar das brancas que se multiplicam como cogumelos)
- palavras mal escritas e verbos mal conjugados (há quem ache piada, eu não)
- aqueles que deixam o carro mal estacionado na minha rua e me obrigam a andar por cima do passeio (meus grandes anormais, para a próxima juro que chamo a polícia!)
- estar parada, assim, sem fazer nenhum (sim, sou impaciente comigo mesma)
- o Benfica não ter um médio-centro (como não ficar impaciente?)


E agora não tenho paciência para escrever mais impaciências.

18 setembro, 2012

Portugal não me (nos) trata bem

No sábado, enquanto meio país estava na rua, eu estava em Cambridge enfiada numa sala a trabalhar. Talvez por isso, nestes últimos dias, tenho absorvido tudo o que é notícias, imagens, crónicas, opiniões, números e coisa e tal sobre a Manifestação (até a moça que abraçou o polícia). E confesso que fico sempre emocionada. Deveríamos sair à rua todos os fins-de-semana, mostrar a vontade esfrangalhada, o peso da vida, a esperança morta.

Há muito tempo atrás li um artigo de opinião (não me lembro onde, nem de quem) em que o autor contava que, num jantar com um amigo que agora vivia na Nova Zelândia, este lhe perguntava: "e o teu país trata-te bem?". Desde então que me questiono sobre isso. Gosto do meu país. Gosto das pessoas. Gosto da comida. Gosto dos sotaques. Gosto de andar a pé pelas ruas. Mas é um país que não me trata bem. Sobretudo quando quem me põe o dinheiro na conta ao final do mês é o Estado. É muito ingrato fazer investigação neste país. Primeiro é conseguir a bolsa - sete cães a um osso. Depois é conseguir que a FCT nos finalize o contrato - uma eternidade. E depois temos de fazer muito, muito mesmo, para conseguirmos ser os melhores. E fazer parte dos melhores, em investigação, infelizmente, significa produzir. Por outras palavras, quem escrever mais artigos em revistas-com-mais-pinta-internacional, ganha. Já para não falar na angústia de pensar "e a seguir vou fazer o quê?". Suspiro. Muitas coisas poderiam ser faladas a este respeito, que é o meu e de muitos outros bolseiros de investigação, cuja vontade é arrumar os livros, a roupa, a cabeça e o computador e zarpar daqui para fora!

Mas também há as inquietações das outras pessoas, que este país também não trata bem. Ontem estava no supermercado e um senhor, com uma bengala gasta pelo tempo e com uma camisola que parece ser a única que existe, pedia no talho aqueles restos de carne que não se pagam. Quase envergonhado, justifica-se para comigo dizendo: "Sabe menina, isto já dá uma bela sopa". E eu fiquei com o coração feito em pó. E depois saber que um pai não pode mandar a filha (que é só a melhor aluna da escola) para a Universidade porque não tem como fazê-lo. É ouvir perguntas dos estrangeiros (no Brasil, em Londres), "e que tal vai Portugal?", e ter de responder que batemos no fundo, embora o diga de forma mais poética porque na verdade sinto é vergonha. Sinto vergonha de fazer parte de um país que não trata bem as suas pessoas, que as varre para outros países porque batemos no fundo (e agora não preciso de o dizer de forma mais poética). 

Custa dizer isto, com ou sem metáforas, de um Portugal que eu gosto...
Mas que não me (nos) trata bem. 

03 setembro, 2012

Para mim o ano não começa em janeiro, mas em setembro.

Gosto de fazer isso que é parar para pensar na vida, de planear trabalho para o ano (planos ambiciosos!) e de fazer promessas, como voltar ao ginásio (esta tem de ser cumprida!). Também digo para mim mesma que vou escrever mais, ler mais, fotografar mais. E ainda aproveitar mais os últimos meses da Capital Europeia da Cultura, assim, como não houvesse amanhã. Depois comer menos, ser menos impaciente (e noutras coisas, mas esta é prioritária) e entrar menos vezes na Fnac ou trazer menos sacos com coisas da Fnac.

Ah, e dormir melhor, coisa que gostava mesmo muito que acontecesse.


31 agosto, 2012

ainda sobre livros

(porque é sobre a única coisa que me apetece escrever neste momento) ... 




Foram quatro os livros que li no mês oito do ano. Antes de dormir, nas esperas dos aeroportos, no avião... e esta semana foram dois, assim sorvidos de uma vez só.

Agosto começou com "Os Malaquias", como escrevi no meu post anterior.

O segundo, "Uma Questão de Atracção", do David Nicholls. Gostei mais do "Um Dia" sobre o qual também já falei aqui. Mas "Uma Questão de Atracção" (ou "A Resposta Certa" como traduzem lá no Brasil) vale a pena por ser divertido. Conta a história de um rapaz que acaba de entrar para a universidade. A sua expetativa é que a sua vida vai começar precisamente a partir desse momento. Os azares, os desamores, as desenventuras, tornam o livro assim... divertido.


O terceiro, "Estorvo", do Chico Buarque. Comprei-o no Brasil e li-o quase sem conseguir parar. É um livro feito de pormenores e eu adoro isso. Tenho a certeza que se voltar a ler, vou encontrar mais uns tantos. Por exemplo: nenhuma personagem tem nome. Não é espetacular? Estorvo, porque conta a história de um homem (na verdade é contada por ele, na primeira pessoa) sem rumo, sem objetivos e com a certeza que alguém o persegue. Como dizem no Brasil, só encrencas a acontecer e arrasta consigo todas as pessoas à volta - a ex mulher, a irmã, e afins. É o retrato de uma pessoa-estorvo. E saber que há tantas por aí e nunca pensei na palavra estorvo...


O quarto, "Norwegian Wood", do Murakami. Comprei este livro há uns meses na Fnac por uma pechicha. Não estava muito entusiasmada para o ler, porque achei o título estranho... e havia tantos outros dele para ler, com títulos mais catitas. Depois de começar a ler senti-me envergonhada com este meu pensamento. "Norwegian Wood" é uma música dos Beatles, a preferida de uma das personagens da história e vai aparecendo, duas, três vezes, ao longo das 35o páginas. É uma história bem intensa, ao jeito do Murakami. Acabei ontem e fiquei a pensar ... não há um único livro de que não gosto deste senhor.


Agora que o mês nove vem aí, tenho para ler Clarice Lispector, Agustina, mais Murakami ... e se calhar outros que me vão caindo nas mãos.

12 agosto, 2012

aquele que queria ter sido eu a escrever


Foi no final do ano passado que ouvi falar da Andréa del Fuego. Ganhou o prémio Saramago em 2011 e é brasileira. Li uma entrevista dela na Atual do Expresso e foi o bastante para "Os Malaquias" entrar para a minha lista de livros ... aqueles que temos mesmo de ler. No final de Fevereiro estava no Brasil e ia percorrendo tudo o que era livrarias para comprar e nada. Entretanto,  inundei-me com outros da lista sem esquecer este, até que em Portugal o encontro em destaque numa estante da Fnac.Contive-me e decidi que o iria comprar no Brasil para ser muito mais catita.

Ainda assim não foi fácil encontrá-lo por cá. Mas valeu a pena. Não só pela história, mas também pelo design de todo o livro, desde a capa à contra capa (com palavras do José Luis Peixoto), às páginas amarelas e outras tantas pretas. Quanto à história ... foi devorada em um terço de tempo. Tem cheiro a Brasil; aparecem as jabuticabas no jardim, o café por apanhar na quinta e mulher escrita como só aqui se diz, muié. De quando em quando, encontram-se pormenores simples mas que preenchem toda a história. É aí que eu penso: "Queria ter sido eu a escrever este livro".

Seria merecido uma visibilidade maior deste livro no Brasil. Encontrei-o na terceira tentativa, numa das maiores livrarias de São Paulo. Não o encontrei na estante dos autores nacionais. Fui perguntar ao moço; ele vê no sistema e foi buscar no fundo da estante... no fundo da estante, era onde estava este livro, aquele que queria ter sido eu a escrever.



30 julho, 2012

É assim por São Paulo


Neste momento estou em S. Paulo, num quarto de hotel que quase cheira a casa pelas muitas das minhas coisas espalhadas pelos espaços: a mesa cheia de livros e blocos com rascunhos e post its (porque não passo sem eles); o frigorífico abastecido de coca-cola zero, água e iogurtes que só encontro cá e são os melhores do mundo - tudo comprado no supermercado onde me pedem sempre CPF e eu tenho sempre de dizer que não tenho disso; a castanha do pará está escondida de mim própria para que não me afunde; a roupa está arrumada nos sítios certos e os sapatos também (perdi a cabeça e trouxe 3 pares de sapatilhas e 4 pares de sapatos); ouve-se Martinho da Vila quase sem parar e, as saudades de Portugal (porque sim, já as tenho) sopram com o Zambujo na "Lambreta".

Se abrir a janela ouço o barulho desta cidade. Ouvem-se as buzinas, tantas que são. Os helicópteros e tudo o que existe. Com 20 milhões de habitantes o respirar das pessoas ouve-se como um coro. Hoje estão 18ºC, é assim o Inverno por aqui. Mas há meninas de melissas nos pés e meninos de t-shirt branca que passam pelos portões da Faculdade. Sim, a minha janela é em frente à Universidade. Por isso, basta passar a rua para ir à lanchonete e me encher de pães de queijo.

Podia dizer mais coisas catitas: falar do mercado municipal, da vontade comer sushi (aqui abunda!), do taxista que me oferece um cd de samba, da Rua Augusta, do mundo da Vila Madalena, etc. porque São Paulo é grande e tem muito ... muito mais do que carros e pessoas.

Mas vai ter de ficar para a próxima porque são horas de me meter a escrever a tese de doutoramento.
(suspiro)



Obs. Já não escrevia aqui há muito tempo, mas é como andar de bicicleta - não se esquece.